Santiago do Chile, 11 de Setembro de 1973
       Nova Iorque, 11 de Setembro de 2001

por Carlos Walter Porto Gonçalves



Mal haviam explodido os aviões que atingiram as torres do World Trade Center e do Pentágono e porta-vozes oficiais do governo estadunidense se apressaram em dizer que a liberdade e a democracia foram atingidas. Eu que acordara de luto naquele 11 de setembro de 2001 por me recordar do 11 de setembro de 1973 não podia deixar de manifestar minha perplexidade não só diante do que via ainda em fumaça mas, também, diante do que ouvia. Afinal, aqueles que falavam que a liberdade e a democracia haviam sido atingidas eram os mesmos representantes de um Estado que 28 anos antes estivera diretamente implicado no bombardeio do Palácio de La Moneda em Santiago do Chile derrubando não só prédios, fazendo vítimas mas, também, adiando o sonho de milhões de cidadãos e cidadãs de construir o socialismo de maneira pacífica mesmo que partindo das limitadas regras das democracias liberais. Não era a primeira vez que isso acontecia bastando lembrar, como faz Noam Chomsky, o banho de sangue que se abateu sobre a Indonésia, em 1965, durante o processo eleitoral que, como tudo indicava, levaria ao poder o socialista Partido Camponês. Havia (e há) em curso uma clara estratégia que procura dissociar socialismo e democracia.

Sabemos, ou deveríamos saber, que no jogo político que caracteriza o mundo moderno o capital vive por meio do controle sobre a multidão (Negri & Hardt) que, entre outras estratégias, consta a tentativa dos “de cima” de dissociar as lutas de libertação dos “de baixo” de sua radicalidade democrática. Os liberais contam (e usam) para isso com as práticas burocráticas daqueles que se aproveitando da luta da multidão contra a dominação do capital instauraram regimes políticos ditatoriais.

A queda dos regimes políticos do leste europeu em 1989 nos permite formar essa convicção haja vista termos, hoje, informação de todo um conjunto de lutas políticas de caráter democrático que vinham sendo travadas por trás da “cortina de ferro”, informações essas que nos foram sistematicamente sonegadas pela imprensa liberal e/ou burocrática. Haviam muitas razões para essa cortina da mídia liberal e/ou burocrática posto que os fundamentos democráticos das lutas que no leste europeu se travavam mexiam no cerne dos limites das democracias liberais e dos regimes sob controle dos partidos comunistas, a começar pelo controle e gestão dos meios de produção pelos cidadãos-trabalhadores diretamente implicados, elemento central das lutas democráticas que se travaram na Hungria, Alemanha Oriental, Polônia e União Soviética, entre outros países. Eis uma diferença fundamental que nos ajuda a entender a ampla divulgação do que aconteceu na Praça Celestial na China em 1996 e mesmo aquelas que se desenvolveram em 1968 em Praga na Tchecoeslováquia (Lefort) e a não divulgação do que acontecia naquele outros países do leste europeu até 1989.

Toda a experiência das lutas da multidão contra os controles que sobre ela tentam se estabelecer tanto os liberal-democratas como os burocratas indica que não se trata de escolher entre cada uma dessas dimensões da democracia, tão ao gosto de uma lógica binária comum no modo de pensar instituído. É exatamente a dissociação entre a lógica inscrita naquelas lutas que se travavam desde o chão das fábricas e das fazendas no leste europeu, que nos sonegaram a informação, e a lógica da luta inscrita na Praça Celestial ou em Praga que reproduz o mundo-que-aí-está nas suas limitadas versões liberal e/ou burocrática.

Torna-se imperioso trazer esses fatos ao debate quando um novo fato, como os atentados desse 11 de setembro de 2001 contra os símbolos do poder do “império” em Nova Iorque, volta a colocar no centro do debate a questão da democracia que tão bem caracteriza a crise permanente constitutiva da modernidade. Fundamental, sobretudo, porque os primeiros sinais que vêm do centro do poder do império, seja do seu núcleo duro que é o Pentágono, seja da OTAN e, pior ainda, com clara simpatia da mídia liberal, é no sentido de que se aumente a vigilância e o controle sobre os aeroportos, como se a possibilidade de novos fatos como esses viessem de avião e necessariamente de fora, para o que Oklahoma (os terroristas eram americanos) e Tel-aviv (o terrorista que assassinou Y. Rabin era israelense) devem estar bem vivos em nossa memória.

Tudo parece indicar que o desdobramento mais provável no prazo mais imediato é que a tendência liberal, já em curso, para uma sociedade de controle se aproveite desse fato e se aprofunde. Afinal, a sociedade de controle de que nos falara Foucault, já faz parte do nosso espaço banal (Milton Santos) com os pardais eletrônicos nas ruas que, sabemos, ou deveríamos saber, não servem só para identificar os carros com velocidade acima da permitida; nas câmaras eletrônicas nos hotéis, nos edifícios residenciais, nos “shoppings centers” e nas lojas que pedem para você sorrir porque está sendo filmado, ou melhor, vigiado; nas escutas telefônicas que invadem a privacidade e, ainda, nos monitoramentos das mensagens eletrônicas dos suspeitos na internet. Tudo isso para que se garanta a vida numa das suas dimensões que é a de se estar biologicamente vivo, mesmo que para isso se coloque em risco aquilo que é a condição para que continuemos inventando um sentido para o viver, que é a liberdade. E essa sociedade de controle, sublinhemos, não se configura a partir de uma situação emergencial, como a de uma guerra, por exemplo, mas, sim, pela instauração de uma cultura de guerra já in-corpo-rada, o biopoder (Foucault e Negri & Hardt), um habitus (Bourdier), e materializada no espaço geográfico do nosso cotidiano, um novo habitat, como acima demos, apenas, algumas indicações.

Tanto o 11 de setembro de 1973, como o de 2001, comportam, portanto, esse profundo significado histórico da crise da modernidade que, sabemos, ou deveríamos saber, não é uma crise de hoje ou, ainda, não é uma crise que foi se desenvolvendo e amadurecendo ao longo do tempo. Não, a crise é constitutiva da própria modernidade.
Por ironia o Palácio onde se encontrava Salvador Allende quando foi derrubado por aquele que controlava o poder militar chileno, o General Augusto Pinochet, era o Palácio La Moneda; o atentado que se abateu sobre o Império atingiu os símbolos do poder militar, o Pentágono em Washington, e do poder econômico, o World Trade Center de Nova Iorque. Na verdade, essas duas dimensões - a econômica (la moneda) e a militar - é que constituem o cerne da crise porque, juntas, constituem o cerne do poder no mundo moderno. Afinal, sabemos, ou deveríamos saber, que a lógica econômica típica do capitalismo esteve, desde sempre, de braços dados com o poder militar necessário para estabelecer os controles sobre a multidão. E um desses suportes de controle foi, sem dúvida, o estado nacional. Numa época, como a nossa, em que os controles territorializados dos Estados Nacionais sobre a multidão já não são tão eficientes, a guerra entre estados já não mais tem sentido colocando os próprios estados-maiores sem saber como agir. Esse fato não impede que os Estados Maiores ajam mas, com certeza, que o espaço onde vão agir já não é o mesmo onde foram educados para agir, o que dá bem conta da gravidade do momento que se vive, o que exige que se busque uma solução política e não militar.

O que esses dois 11 de setembro nos apontam é que não está decidido o futuro e, mais, que o futuro depende, sobretudo, da superação da apatia em grande parte produto da crença ingênua de que alguém, que não as próprias instituições que viermos a constituir por nós mesmos, nos dará segurança. O que esses dois 11 de setembro nos ensinam, e que jamais deveríamos esquecer, é que nenhum poder por mais poderoso que se sinta e por mais que prometa uma segurança a todos, não pode cumprir sua promessa ou se sentir absolutamente imune às ações de qualquer contra-poder. Afinal, a faca que serve para cortar o pão nosso de cada dia serve, também, para seqüestrar; o avião que serve para nos transportar pode se transformar num coquetel molotov. A criatividade é um atributo de todo ser humano por mais que se queira fazer acreditar, até para justificar a dominação, que uns sabem, e por isso mandam, e outros não sabem, e por isso, devem ser dominados. Ela pode ser usada tanto pelos “de cima” como pelos “de baixo” como, também, pode ser usada tanto para o mal como para o bem.

O que o dramaticamente fantástico evento desse último 11 de setembro que atingiu o símbolo do poder econômico e do poder político, em Nova Iorque e em Washington, também nos mostra é que a lógica militar estava subjacente ao fato. E o que essa lógica tem a nos oferecer é espetáculo como esse, ou seja, tragédias com muitos escombros e mortes de inocentes seja em Jerusalém, seja em Tel-aviv, seja em Bagdad, seja em Nairobi, seja Nova Iorque. Sabemos, ou deveríamos saber, que muitas são as vítimas banalizadas e incorporadas como naturais por essa ordem econômica e política que produz riqueza para poucos, pobreza e miséria para muitos e degradação ambiental para todos cujas decisões são produzidas em lugares confortáveis - G-7+1, Bolsas de Valores, FMI, OMC e Banco Mundial - mas cujas conseqüências trágicas atingem quotidianamente vítimas dispersas por todo o mundo e cujo número ultrapassa, infelizmente em muito nessa matemática macabra, todas as milhares de vítimas dessas tragédias localizadas mas não locais, como a de Nova Iorque e Washington.

De nossa parte queremos trazer para o debate esse dois lados do 11 de setembro – aquele que valoriza a multidão e quer a paz e a alegria com liberdade que, para isso, luta por igualdade e por justiça social; e a paz que vem pelo controle da multidão, com desconfiança do vizinho e do diferente, que vem pela vigilância de todos e de cada um, que nos infantiliza como todo Grande Irmão (George Orwell). O que vimos explodir no World Trade Center e no Pentágono foi a lógica da guerra o que significa, na prática, que a política falhou. Se há algo de positivo, mesmo que ainda sob tantos escombros e vítimas é, com certeza, o de tornar imperiosa a necessidade de recuperar o lugar sublime da política e, com ela, da razão. Ou recuperamos a política, o que pressupõe a participação protagônica da multidão, ou continuaremos a ver esse triste espetáculo de tragédias se repetindo.

Quem sabe Salvador Allende pode nos servir de inspiração para a retomada dessa busca incessante da multidão por justiça e liberdade que esses dois 11 de setembro de Santiago e Nova Iorque, contraditoriamente, contém. Desde que aprendamos com os muros (1989) e as torres (2001) que caíram. Um outro mundo é possível (e necessário).
 

• Carlos Walter Porto Gonçalves é doutor em Geografia, Professor Adjunto do Programa do Pós-graduação em Geografia do Departamento de Geografia da Universidade Federal Fluminense (Rio de Janeiro, Brasil) autor de diversos artigos e livros publicados em revistas científicas nacionais e internacionais, sendo os mais recentes “Geo-grafías: movimientos sociales, nuevas territorialidades y sustentablidad”, ed. Siglo XXI, México, 2001 e “Amazônia, Amazônias”, ed. Contexto, São Paulo, 2001.


 

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