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Paradise Now! Afinal, como encontrar o paraíso da igualdade entre os homens?
por Cris Miranda

Tratado pela maioria das críticas como o filme que "dá a palavra aos homens-bombas", Paradise Now, do cineasta palestino Hany Abu-Assad, conta a história de dois amigos, Said (Kais Nashef) e Khaled (Ali Suliman), que são convocados a morrerem pela causa palestina num atentado suicida em Tel-Aviv. À primeira vista, sim, estariam com a palavra os "homens-bombas". Mas o filme de Abu-Assad é muito mais do que isso. Preza pela competência dos verdadeiros cineastas: antes de fazer o filme foram necessários 4 anos de pesquisas e entrevistas com familiares e grupos organizados conhecedores da causa. O resultado é um filme sensível, que emociona, sem chocar mais do que o necessário.

Com um roteiro construído de forma cirúrgica, Paradise Now mostra a vida da população palestina entre os escombros remanescentes de bombardeios e a ocupação israelense. Não há como entrar nem sair da cidade de Nablus sem a revista das tropas israelenses. A tomada de consciência da verdadeira prisão em que vive o povo palestino se dá, sobretudo, na relação de Said com uma jovem palestina que retorna à Cidade após residir na Europa por um tempo. Filha de um importante militante que morreu como mártir da causa palestina, Suha (Lubna Azabal), educada sob outros preceitos, desperta os sentimentos de Said que passa a refletir sobre a própria imagem. No dia que encontra Suha, o jovem vai a um estúdio e posa num fundo falso de paisagem como alguém que está fora da cidade natal, em uma viagem de turismo. Mas não é uma foto de alguém feliz em férias, Said não consegue sorrir.

Como numa das cenas iniciais, em que o dono de um carro que está sendo consertado (na oficina onde os dois amigos trabalham como mecânicos) insiste na afirmação de que o pára-choque do carro ficou torto, mesmo após os dois terem lhe mostrado com o medidor de que estava correto o conserto, a realidade não suplanta o que gostaríamos de ver. Said e Khaled, convocados por militantes de um grupo terrorista, aceitam como honra máxima a missão suicida, que pode ser metaforizada pela bela e verdadeira amizade de infância dos dois jovens, inabalável do começo ao fim do filme.

A crueza da decisão de Said e Khaled é amenizada no filme pela cena em que os dois amigos gravam suas mensagens de despedida em vídeo sob a supervisão dos militantes organizados. O texto-despedida tem que ser repetido por causa de um defeito na câmera. Enquanto repete seu texto, Khaled, ao ver um dos militantes comendo um sanduíche, acrescenta, no meio do texto, uma mensagem para sua mãe avisando que encontrara um filtro de água mais barato para uma futura compra. A cena resume o próprio filme: desconstrói a imagem pré-concebida daqueles que se transformarão, ao mesmo tempo, em heróis-mártires e suicidas-assasinos, e mostra o risível do humano.

Um ritual de purificação, banho, barba, novas roupas e uma última e farta ceia antes de saírem para a missão, transforma a imagem dos dois jovens para que eles possam circular em Tel-Aviv (uma cidade-shopping como qualquer outra grande cidade do mundo ocidental) sem provocarem suspeitas. Mas nem tudo sairá como previsto e Said e Khaled acabam se separando.

Num misto de religiosidade, sentimento de honra à causa, e até mesmo vingança pelas condições impostas por Israel (e pelas grandes potências aliadas), os dois amigos, em momentos diferentes, questionam a ação a ser desenvolvida. Existe outra saída? Assim, junto com os personagens, refletimos sobre as motivações ideológico-religiosas das ações terroristas. Após o 11 de setembro, muitos já disseram, o mundo não seria o mesmo. Sob a cruzada anti-terrorista‚ sobrepõe-se as ocupações militares, os bombardeios sistemáticos, as vítimas inocentes, que acabam por reforçar novas convocações de homens-bomba. A questão, entretanto, não pode ser localizada nos países do Oriente Médio. Ao contrário, ela é mais do que universal, e nos remete para todos os povos oprimidos pelos interesses imperialistas.

Num momento em que o ocidente volta seus olhares para a Palestina, na disputa entre o Hamas e o Fatah, e entre Israel (e os EUA) e o povo palestino, assistir ao filme Paradise Now nos livra dos maniqueísmos e pré-conceitos sobre as questões envolvidas e nos ajuda a percorrer um complexo mosaico étnico, religioso e nacional. Khaled desiste da missão que Said leva até o fim. Mas a revelação final do filme de que o pai de Said teria morrido como colaborador de Israel não diminui em nada a sua decisão, que está longe de ser uma pura vingança ou redenção. A cena entrecortada entre o olhar de Said, dentro de um ônibus prestes a explodir (com soldados israelenses mas também muitos civis), e os olhares dos personagens envolvidos (a mãe, a jovem palestina, os militantes do grupo palestino), nos remetem ao nosso próprio olhar. A questão da Palestina é universal. É de todos aqueles que desejam um mundo igualitário. Afinal, de que forma os povos oprimidos poderão encontrar o paraíso entre os homens? A música tema do filme dá uma pista: my salvation, ... in your love‚...  e na nossa luta.

 

Cris Miranda é professora  de Artes Visuais do CAp-UFRJ