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Resenha do filme Soy Cuba, O Mamute Siberiano, escrita por ocasião de sua exibição no encerramento da primeira edição do projeto PROFESSOR VAI DE GRAÇA AO CINEMA, em 26 de janeiro de 2006:

 

O documentário brasileiro Soy Cuba, O Mamute Siberiano conta a história de como Soy Cuba, longa-metragem co-produzido por cubanos e soviéticos em 1963, caiu no esquecimento por mais de 30 anos, mesmo depois de ter mexido com a vida de milhares de pessoas - inclusive tropas inteiras de soldados cubanos que atuaram como figurantes.

O primeiro é um filme de ficção em quatro episódios, dirigido pelo pioneiro Mikhail Kalatozov e fotografado por Serguei Urusevsky, ambos premiados em Cannes por Quando Voam as Cegonhas, de 1957. Eles foram levados ao país caribenho no primeiro esforço conjunto de criação entre Cuba e a URSS, após o bloqueio norte-americano e a aproximação de Fidel com Moscou . A idéia era criar um poema épico que também servisse como libelo de propaganda sobre a ilha que acabava de virar o primeiro país socialista do continente americano. Ao longo de 141 minutos, o espectador viaja por cenas de guerra em canaviais, acompanha as acrobacias de câmera pelas ruas e prédios de Havana e sofre com a tensão dos conflitos entre estudantes e forças de repressão nas vésperas da Revolução de 1959.

A filmagem levou 14 meses e envolveu dezenas de técnicos soviéticos que treinaram cubanos em várias funções do cinema. Os realizadores tiveram total liberdade - o que é raro para um filme de propaganda - e receberam apoio praticamente ilimitado dos governos de Havana e Moscou. Por exemplo, o diretor de fotografia encomendou lentes infra-vermelhas usadas pelo Exército Vermelho para captar melhor a luz do fogo, e fez questão de ter lentes usadas em periscópios de submarinos soviéticos para filmar dentro de uma piscina.

Na época, Soy Cuba foi rechaçado tanto em Cuba quanto na União Soviética: os cubanos não se reconheceram no tom forçadamente épico e os soviéticos desaprovaram o lirismo excessivo das imagens. Inclusive os membros da equipe técnica não gostaram do resultado. O Realismo Socialista, criado na era stalinista, era bem diferente do estilo cubano, mais influenciado pelo Muralismo e outras tradições artísticas latino-americanas. Ainda assim, a produção soviética ajudou a formar uma geração que depois construiu o cinema cubano, revolucionário em mais de um sentido.

O filme passou três décadas esquecido. Em 1994, os cineastas Martin Scorsese e Francis Ford Coppola redescobriram uma cópia e resgataram Soy Cuba para a memória das gerações posteriores. Ironicamente, foi nos EUA - o país arquiinimigo de Havana e de Moscou - que a grande peça de propaganda revolucionária recebeu reconhecimento, agora como obra de caráter nostálgico e inofensivo.

Em 2000, o Brasil entrou nessa história, quando o cineasta carioca Vicente Ferraz soube da restauração do filme nos EUA e decidiu procurar pessoas que participaram da epopéia original. Acabou descobrindo, surpreso, que muitos quase não lembravam mais da produção. Ele intermeou entrevistas com trechos do filme original, preservados em arquivos. O resultado virou Soy Cuba, O Mamute Siberiano, primeiro longa-metragem de Ferraz, que estudou em Cuba e hoje dá aulas na Escuela Internacional de Cine y TV de San Antonio de Los Baños.

O filme de Ferraz ganhou o Kikito de Melhor Documentário em Gramado, em 2005, e foi premiado ainda em outros festivais da América Latina e em Chicago. Tanto ele quanto Soy Cuba foram exibidos e muito aplaudidos no Festival do Rio 2005.

Com este documentário, o projeto PROFESSOR VAI DE GRAÇA AO CINEMA procura levar ao educador questões como as implicações políticas e ideológicas da produção, as identidades culturais latino-americanas e ainda trazer à tona a discussão sobre os diferentes tipos de socialismo e de utopias revolucionárias. Outro tema é a conservação da memória da sociedade sobre sua própria cultura e política: o "mamute siberiano" do título (tirado de uma referência feita por um crítico) é o colosso congelado desde priscas eras, preservado intacto para a posteridade. Afinal, como é mencionado no próprio filme, "os governos passam; o que se lembra são as obras de arte".

Pedro Aguiar, jornalista colaborador do Oficina Cine-Escola