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Sexta dose de Cachaça!

Cinema e cachaça. Uma combinação que vem dando certo há seis meses, desde que estreou no Cine Odeon BR, o Cachaça Cinema Clube. O evento, que chegou à sua sexta edição no dia 19 de março, estava no clima de celebração do curta-metragem nacional, ainda mais em 16mm. Afinal, enquanto os curtas eram exibidos do lado de dentro, na entrada do cinema era filmada uma cena do curta-metragem “Mora na Filosofia”, do diretor Gustavo Acciolli, que tem na direção de arte, a organizadora do Cachaça, Débora Butruce.

A primeira exibição da noite foi Boato: Uma Autodefinitude (1991), filmado em 16mm, pelo próprio Boato, surgido em 1989 e formado por um grupo de poetas que mais tarde se transformou em uma das mais expressivas bandas do underground carioca. Transitando entre o teatro, a poesia, a performance e as artes plásticas o Boato acabou resolvendo sintetizar suas idéias estéticas nesse curta.

Filme de poesia que ganhou o prêmio Tatu de Bronze para filme revelação na Jornada Internacional de Cinema da Bahia além do Prêmio Panda para melhor plano no Rio Cine Festival. Segundo os autores, que estiveram presente para apresentar o filme: “É um curta sem pretensão. No cinema é legal passar uma coisa sincera. Ainda mais em tempos de guerra”. Em uma carta lida, enviada pelo integrante Beto: “O Boato é cinema fornicando com a poesia, mulher infiel, graças a Deus!”.

O segundo curta foi Oi Laura, Oi Luis (1998), de Márcio Melges, que agradeceu e se disse feliz pelo filme ser querido pelos atuais estudantes de cinema. Seu curta fala sobre a vida, que, por ser uma só, é melhor aproveitá-la. Laura e Luís não sabem como. O filme é uma breve exposição dos momentos agitados da juventude, quando tudo parece ser possível e o mundo pode ser qualquer coisa, menos tedioso

Em seguida, diretamente de Pernambuco, foi a vez de Resgate Cultural (2001), de Pajé Limpeza e Telephone Colorido, segundo os diretores “uma homenagem a Ariano Suassuna”.  Telephone Colorido é uma produtora de cinema e vídeo do Recife formada por jovens artistas familiarizados com diversas formas de expressão. Seus variados projetos incluem performance, artes plásticas, intervenções diversas e música, sendo Pajé Limpeza a radicalização sonora de suas pesquisas estéticas.

Com Resgate Cultural o grupo se aventurou pela primeira vez no cinema e obteve um resultado impressionante. De um experimentalismo impensável, o curta chama a atenção pela ousadia com que consegue tratar a cultura popular e a sua crescente transformação e modernização. Na vasta lista de prêmios recebidos estão, apenas para citar alguns, um prêmio de Melhor Filme dado pela ABDeC-RJ e o Prêmio Destaque em Pesquisa de Linguagem no Festival de Cinema Universitário.

Encerrando a primeira parte, Cinema Novo (1967) , de Joaquim Pedro de Andrade,  homenageado da noite. Sua filha Maria de Andrade esteve presente e falou da visão muito íntima que o pai mostra no filme sobre o Cinema Novo. Ela falou da existência de um projeto de restauração de toda a obra do diretor e dos problemas de preservação das cópias.

Cinema Novo foi pensado como episódio de introdução de uma série de exibições de filmes brasileiros na TV alemã. Nosso cinema estava despertando curiosidade na Europa com um movimento consistente, esteticamente e tematicamente característico. O filme mostra com aproximação o grupo de cineastas que atuou mais profundamente para que isso acontecesse.

Nelson Pereira dos Santos, David Neves, Domingos de Oliveira, Glauber Rocha, Carlos Dieges, Leon Hirszman são filmados por um colega, comprometido com os mesmos interesses e confiante na evolução do Cinema Brasileiro.

Após a sessão, a Cachaça Magnífica ofereceu a já tradicional degustação aos amantes da boa pinga ao som muito brasileiro do DJ do Cachaça Cinema Clube, que mais uma vez, invadiu com muita animação, a madrugada da Cinelândia.

(Dominique Valansi)