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O
Abismo de um Sonho
(Lo Sceicco Bianco) de Federico Fellini
Direção:
Federico Fellini
Roteiro: Federico Fellini, Tullio Pinelli, Ennio Flaiano
Fotografia: Arturo Gallea
Produção: Luigi Rovere
Elenco: Alberto Sordi, Brunela Bovo, Giulietta Masina, Leopoldo Trieste.
P&B. 35mm. 85 min.
Itália, 1952.
Sinopse
Uma
mulher recém-casada passa a lua-de-mel em Roma. Influenciada pelos
folhetins que lê com freqüência, tem um encontro com
"o xeque branco", um dos heróis de fotonovela que ronda
seus sonhos. Esse encontro põe fim às suas ilusões.
Ela volta para o marido e para um mundo menos quimérico.
Abismo
de um Sonho mostra que ainda é sucesso cinqüenta anos após
sua estréia oficial
Federico Fellini - hoje um "monstro sagrado" da sétima
arte - antes de alcançar posição relevante que ocupa
na história do cinema, praticou longo e paciente 'fulltime' artesanal
que lhe permitiu assenhorear-se dos inúmeros segredos dessa nova
forma de expressão artística. Daí ter perambulado
pelos estúdios italianos, ora fornecendo idéias cômicas
para esta ou aquela produção, ora sugestões melodramáticas
para este ou aquele filme. Escrevendo roteiros, bolando diálogos,
inventando enredos, assessorando ou assistindo a diretores, desde os 19
anos de idade era figura familiar nos meios cinematográficos de
sua terra. Assim, colaborou, de alguma forma, com Pietro Germi, Cesare
Zavattini, Rossellini e Alberto Lattuada, entre outros, até que
surgiu a oportunidade de dirigir Lo Sceicco Bianco, exibido no Brasil
com o título ridículo de ABISMO DE UM SONHO.
Esse já éum filme de Fellini. Vale dizer: nele se encontram,
implícito e explícito, todo o seu universo, toda a sua visão
de um mundo, ou seja, o seu estilo e a sua humanidade, ambos peculiares,
personalíssimos, dotados de característica poesia e realismo.
Seus filmes - observa Alex Viany - são sempre comentários
irônicos e amargos sobre a vida que tem vivido e o mundo que vai
observando. Mas notoriamente a realidade felliniana confunde-se em qualquer
plano com a fantasia e o fantástico. Pode-se mesmo dizer que, para
Federico Fellini, os fatos da vida só adquirem vivência e
validade quando passam pelo filtro de sua fantástica imaginação,
quando são coloridos por sua inesgotável fantasia.
É o que se pode ressaltar neste O SHEIK BRANCO. Nele o famoso cineasta
parte de sua experiência pessoal como ex-escritor de fotonovelas
para satirizar essa forma barata de literatura, responsável pela
deformação das mentes e dos espíritos, geradora de
um desbragado romantismo que infunde nos seus leitores uma concepção
evasionista e falsa da vida.
Mas o que se deve destacar nesse filme, ao lado da sátira impiedosa
- que não se dilui nem esmaece na farsa e na comicidade, mas, pelo
contrário, mais crítica se torna quanto mais jocosa parece,
- é o seu comovido amor pelo ser humano e suas perplexidades: o
ser humano que assiste, decepcionado, à derrocada de sua inocência
diante da realidade áspera e dura. A sonhadora Wanda, que busca
no Sheik Branco o seu herói, um pobre diabo à procura também
de fugas e sonhos, é uma Bovary dos nossos tempos. Desiludida,
só lhe resta uma solução: o retorno ao marido prosaico,
mas sólido, ao grupo familiar e social obediente a preconceitos,
às normas corriqueiras e comezinhas de viver, às crenças
e vulgaridades do cotidiano. É o que faz sob o olhar de pedra de
um anjo. A estátua do anjo, ao final do filme, é uma promessa
de perdão ou apenas uma irônica e indiferente testemunha
do desvalimento e das desilusões humanas?
Mariano Torres.
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