Curso: CHANBARA, o caminho do guerreiro. (201713006)

“A vida de alguém é limitada; a honra e o respeito duram para sempre.”
Miyamoto Musashi

Se o western é o gênero por excelência do cinema estadunidense, o mesmo pode ser dito para o chanbara ou filme de samurai, gênero que identifica mais amplamente o cinema ficcional japonês ao longo de sua história, e particularmente sua percepção no Ocidente. Tradicionalmente dividida em dois grandes grupos, os gendai-geki, ou filmes cuja trama se desenvolve na contemporaneidade, e os jidai-geki, dedicados aos dramas de época com acento épico, a vasta produção cinematográfica japonesa sempre foi marcada por fortes traços da história e da cultura locais. Muitos destes elementos assumiram decidida conotação ideológica dentro da complexa identidade nacional japonesa, como o da figura do samurai, particularmente em momentos de aproximação aos valores ocidentais.

Originalmente coletora de impostos, a casta nobiliárquica e militar dos samurais consolidou-se a partir do século XIII como braço armado dos xogunatos, grandes clãs que governaram o país até o início da era Meiji, na segunda metade do século XIX. Ao mesmo tempo protegida e protetora dos grandes senhores feudais, a classe letrada dos samurais desenvolveu habilidades específicas como a capacidade de ler, ensinar e escrever, a criação artística, com destaque para a literatura e a pintura, a reflexão ponderada, sempre concentrada em torno do bushidô, o tratado ético-filosófico travestido de código que guiava sua conduta, e o treino para a luta e a guerra, por meio de uma série de armas, técnicas e estratégias, dentre as quais destacam-se os sabres longo (katana) e curto (wakizashi), que os distinguiam e os dignificavam perante a sociedade. Como certa vez definiu o xogum Ieyasu Tokugawa, “A espada é a alma do samurai”.
Ser um samurai significava encarnar o poder e a justiça, e por extensão uma certa idéia de bondade, retidão e sacrifício. Como signo maior do homem ideal japonês e da própria identidade japonesa a personagem do samurai conhecerá uma ressignificação ideológica no século XX, principalmente através do cinema e do mangá. Como outros heróis nacionais, sua invocação responderá à necessidade conservadora de restauração dos ideais do passado frente ora à assimilação cultural, ora à ocupação do país, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, e à crítica das contradições embutidas nesse retorno. Não por acaso, a maior parte dos “grandes samurais” cinematográficos são em verdade ronin, guerreiros errantes apartados de sua obediência ao senhor feudal ou ao mestre, livres para questionar seus princípios e a “glória” do império. No primeiro grupo teremos os cineastas mais “japoneses”, como Hiroshi Inagaki, Tomu Ushida e Hideo Gosha, e no segundo mestres mais conhecidos como Akira Kurosawa e Masaki Kobayashi, e os contemporâneos Takeshi Kitano, Takashi Miike e Yoji Yamada.

O curso pretende ser uma introdução ao gênero em sua feição mais popular, demarcando três épocas distintas – o período formativo até a guerra; a era clássica do chanbara, com o afrouxamento da censura militar estadunidense em meados dos anos 50; e a decadência a partir dos anos 1970, com o ensaio de retomada dos valores culturais encarnados pelo samurai nos filmes do século XXI –, e um percurso em torno das diferentes representações ideológicas, estéticas e culturais da personagem ao longo da história do cinema.

Cronograma de aulas

10/01 – Inventando o subgênero do subgênero: os filmes de combate por espada
12/01 – Exibição de Espada diabólica – Primeira Época (Daibosatsu tôge), Japão, 1957, 106 minutos / Direção Tomu Uchida
17/01 – Alegorias de um país derrotado: a época de ouro
19/01 – Exibição de Zatoichi desafiado (Zatoichi chikemurikaidô), Japão, 1967, 87 minutos / Direção Kenji Misumi
24/01 – Renovando o Chanbara
26/01 – Exibição de Samurai X – O Filme (Rurouni Kenshin: Menji kenkaku roman tan), Japão, 2012, 135 minutos / Direção Kenshi Otomo
28/01 – Encerramento, com a exibição em 35mm de O samurai do entardecer (Tasogare seibei), Japão, 2002, 129 minutos / Direção Yôji Yamada

Obs.: todos os encontros serão às 19h, com exceção do encerramento que será às 9h.

Bibliografia:

GALLOWAY, Patrick. Stray dosg & Lone Wolfs: The samurai film handbook. Albany: Stone Bridge Press, 2005.
HIRANO, Kyoko. Mr. Smith Goes to Tokyo: Japanese Cinema under the American Occupation, 1945-1952. Londres e Washington: Smithsonian Institution Press, 1992.
ITAKURA, Fumiako. The sword and the screen. The Japanese period film – 1915-1960. Disponível em: http://ceas.yale.edu/sites/default/files/files/events/past/20120121springjapanfilm_swordandscreenpamphlet.pdf.
JAPÃO, a história através do cinema. Lisboa: Cinemateca Portuguesa, 1982.
MUSASHI, Miyamoto. O livro dos cinco anéis. Blumenau: Eko, 2007.
O FILME japonês. São Paulo: Grupo de Estudos Fílmicos, 1963.
OHNO, Masao. Cinema japonês. São Paulo: Masao Ohno Editora/Cinemateca Brasileira, 1964.
NOVIELLI, MARIA Roberta. História do Cinema Japonês. Brasília: UNB, 2001.
RICHIE, Donald. Japanese cinema, film style and national character. New York: Anchor Books, 1971.
RICHIE, Donald. Os filmes de Akira Kurosawa. São Paulo: Brasiliense, 1984.
RODRIGUES, José Fioroni. Panorama geral do cinema japonês e sua época de ouro. Revista da USP, 27: 165-169, 1995.
SILVER, Alain. The samurai film. Woodstock: Overlook Press, 1983.
YAMAMOTO, Tsunetomo. Bushido, el camino del samurai. Barcelona: Editorial Paidotribo, 2005.
YOSHIKAWA, Eiji. Musashi. São Paulo: Estação Liberdade, 1999.
WILLER, Cláudio. Os samurais do cinema japonês: outro mundo, outros tempos. In: Reserva Cultural. São Paulo: Lazuli Editora, 2007.

Preços: R$ 90,00 por aula (sujeito a lotação, pago somente no dia e no cinema) e R$ 360,00 o curso inteiro.

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