Histórias de um filme campeão

Uma comédia cativante sobre uma hipotética cidadezinha do nordeste e as mirabolantes histórias contadas por sua gente se tornou a grande vencedora do Festival do Rio de 2003. Críticos e público foram unânimes e, Narradores de Javé, segundo longa-metragem da diretora paulista Eliane Caffé, foi vencedor dos dois prêmios de melhor filme: o do júri oficial e o do voto popular, sem contar o de melhor ator para José Dumont, que interpreta o protagonista endiabrado, Antônio Biá. O elenco conta também com Matheus Nachtergaele, Gero Camilo e Nelson Xavier.

Antes de estrear com seu primeiro longa-metragem, Kenoma (1998), a diretora Eliane Caffé percorreu um longo caminho no formato de curta-metragem. Ela dirigiu O Nariz(1987), Arabesco - ganhador do prêmio de Melhor Curta-Metragem de Gramado na seleção do júri oficial e popular em 1990 - e Caligrama (1995). A idéia para o novo filme surgiu de uma história verídica de um funcionário de um correio de uma pequena cidade de Minas Gerais. Ele mesmo escrevia e mandava as cartas para o posto não fechar (e ele não perder o emprego). A partir daí o tema foi ampliado para tradição oral brasileira que está sendo perdida a cada dia.

O longa-metragem conta a história do pequeno vilarejo de Javé, que tem sua monótona rotina alterada com a notícia de que em breve será extinta. Uma grande hidrelétrica está sendo instalada na região e inundará a área.

Para evitar a tragédia, os moradores decidem escrever um dossiê com toda a história e os grandes acontecimentos do povoado. Ganhando importância histórica, sua preservação poderia ser justificada. Apesar de analfabetos, os cidadãos de Javé se revelam verdadeiros contadores de histórias. Cada uma é mais elaborada ou exagerada do que a outra, sempre dando ênfase ao ponto de vista do narrador.

Além da confusão das versões, eles ainda vão ter que enfrentar o anárquico carteiro Antônio Biá, que por sua coleção de boatos inventados, é odiado por toda a cidade.

Porém, ele é único alfabetizado do local, sendo dele a difícil função de escrever a “verdadeira história de Javé”.

Muito abusado, Biá tem o hábito de dar apelidos bem originais para seus conterrâneos. Expressões como “piaba de silicone”, “tapioca de exu”, “manicure de lacraia”, “pokemon de Jesus” e “omelete de cupim”, vão irritar ainda mais os moradores de Javé, e arrancar gargalhadas da platéia. Aliás, as risadas podem vir a competir com a trilha sonora do DJ Dolores, que mistura com muito estilo, sons regionais com batidas eletrônicas.

No site oficial - http://www.narradoresdejave.com.br/ - além de dados básicos como: sinopse, elenco, trailler, fotos e etc., também pode-se encontrar o “blog de Javé”.

Os blogs, espécie de diários virtuais, permitem que qualquer pessoa escreva e publique um texto na Internet, mesmo sem saber as linguagens de programação.

Na homepage do filme foi disponibilizada uma versão on-line do “livro de Javé”. Em vez de contar a história da cidade, os internautas estão convidados a fazer o que os moradores de Javé não fizeram: escrever. E como já dizia o Biá: “Pode mentir, mas minta bonito”.