Cineclube Glauber Rocha completa três décadas

Há trinta anos o Brasil vivia a ditadura militar que reprimia e censurava atividades independentes. Um dos ataques era direcionado aos cineclubes, que segundo o governo, através de seus filmes e debates poderiam passar mensagens subversivas. Apesar das dificuldades, um grupo de vinte e nove jovens estudantes se reuniu pela primeira vez no dia 11 de agosto de 1972 para assistir e debater filmes, não só como uma forma de prazer, mas para combater o marasmo e o conformismo cultural que era imposto pelo governo.

 

Para dar nome ao cineclube, nada mais contestatório e genial tratando-se de cinema brasileiro que Glauber Rocha, então perseguido e exilado desde 1969, que era considerado pelos militares um dos principais ativistas contra o governo depois do golpe de 1964. Estava fundado então o Cineclube Glauber Rocha.

 

O primeiro espaço que o cineclube ocupou foi um sóbrio templo anglicano, de onde, pouco tempo depois, os estudantes foram despejados. Logo depois, o grupo se mudou para a Igreja de São Francisco do Engenho Velho, na Tijuca, na rua com o mesmo nome. O grupo era protegido pelo corajoso Monsenhor Vital Francisco Cavalcanti e pôde funcionar por três anos. O exército queria investigar as sessões e palestras e até monsenhor Vital, que era responsável pela paróquia, foi investigado.

 

Para comemorar os trinta anos de fundação do Cineclube, na noite de sábado, dia 24 de agosto foi promovida uma sessão especial de Os Companheiros, de Mario Monicelli, no Cine Odeon BR. Este filme era garantia de casa cheia no Cineclube, já que, ao lado de Morangos Silvestres, era um campeão de bilheteria. Eram as sessões desses filmes que financiavam os filmes brasileiros que muitas vezes ficavam vazios.

A escolha de Os Companheiros cumpriu o papel de não deixar cair no esquecimento o caminho trilhado por este cineclube, como também convidou novas gerações para compartilhar esta história e esse prazer.

 

Quem abriu a sessão foi o diretor do Grupo Estação, Nelson Krumholz. Ele falou sobre a importância dos cineclubes em uma época de censura, uma montanha a ser transposta a cada sessão. E também contou que o Cineclube Estação é um filho direto do Cineclube Glauber Rocha. E pensando assim, o Cine Odeon, reformado e re-inaugurado, era uma espécie de neto do Cineclube.

 

Depois foi a vez do cineclubista Márcio Arnaldo subir ao palco e relembrar vários momentos importantes do Cineclube, como um festival de curtas em Super 8. Ele citou o Monsenhor Vital, que ajudou tanto o movimento. Vital pôde comparecer à sessão comemorativa e recebeu os aplausos da platéia que encheu o cinema Odeon.

 
Após a exibição, houve uma comemoração no Bar do Ernesto, ao lado da sala Cecília Meireles, na Lapa, onde cineclubistas com seus filhos, netos, amigos e outros cinéfilos comemoraram trinta anos de Cineclube Glauber Rocha.

 

(Dominique Valansi)