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(LES SANGUINAIRES) 

Um filme de Laurent Canter

SINOPSE

Poucos dias antes do fim do século XX o mundo inquieto e excitante espera o ano 2000. Para escapar da histeria global e da contagem regressiva, um grupo de amigos liderados por François foge deste período de comemorações e se exila numa ilha "Sanguinaires", fora de Ajaccio. São inúmeras as tentações para burlarem as regras que eles mesmos estabeleceram para ficarem fora do mundo, mas eles conduzem com sucesso esta pequena aventura. Somente François não encontra o seu espaço no lugar idealizado e organizado por ele mesmo. Não importa o quanto foi forte sua determinação, porém, após isolado do mundo, ele se distancia dos seus mais próximos amigos e de Catherine - seu amor. Aos poucos, ele sente que esta tranqüila e bela ilha, bem como o jovem Stephane, morador da ilha que os acolhe com prazer, estão associados com o mistério que o aliena e o conduziu para este último refúgio. Na noite do Reveillon, na batida final anunciando meia-noite, o François desaparece.

O DIRETOR

Laurent Cantet ganhou reconhecimento logo com seus primeiros filmes de curta e ficção: "Tous à La manif" premiado com o Special Prize in Pantin 94, com o Grand Price de Belfort Film Festival 94, e o tão prestigiado Price Jean Vigo 95, e "Jeux de plage" - Prêmio Especial do Júri em Belfort 95. Ambos filmes, confirmaram seu talento peculiar, combinando incrível percepção para detalhe e observação com uma inteligência privilegiada para dirigir atores.

PRODUÇÃO

França / l997. 68 min.
Colorido / S16mm > 35mm.
Direção: Laurent Cantet
Roteiro: Laurent Cantet e Gilles Marchand
DOP : Pierre Milon
Edição : Robin Campillo
Som : François Maurel
Direção de Arte : Alain Tenenbaum
Elenco: Frédéric Pierrot, Catherine Baugué, Djallil Lespert, Marc Adjadj, Nathalie Bensard, Vincent Simonelli.
Co-produção: La Sept ARTE ( Unité de 54º Venice International Film Festival

Programmes Fictions, Pierre Chevalier) e Haut et Court ( Carole Scotta, Caroline Benjo, Simon Arnal), com a participação da CNC e da Collectivité Territoriale de Corse.

Selecionado para o 54º Venice International Film Festival.

ENTREVISTA COM LAURENT CANTET

No início deste projeto, havia uma diretriz: descrever, em ficção, o momento de transição para o ano 2000. Como você atendeu a esta determinação específica?

A idéia do ano 2000, realmente nunca significou nada para mim, mas fui atraído para esse desafio. O prazer estava em responder este desafio até seu limite, uma vez que a estória do meu filme é ²como escapar do ano 2000². E isso estava muito perto do que pensava naquele momento.


Você pensou que fosse capaz de imaginar uma estória sobre antecipação do Futuro, visto que seus filmes normalmente são baseados no Presente?

O ano 2000 está muito próximo e nós já sabemos o que ele contém, sem necessidade de imaginar grandes alterações. Os anos 60 e 70 foram realmente os anos do futuro. Vinte anos atrás, podíamos sonhar com o ano 2000, mas isto certamente não é mais o caso. Quando eu era garoto, me lembro do lançamento do Apollo e dos primeiros passos do homem na lua. Aqueles foram os momentos que contribuíram para criar essa imaginação sobre o Futuro. Na realidade, isto é bom para lembrar da minha infância com associação dos fatos daquela época. O relacionamento destes fatos com o ano 2000 geram no filme uma seqüência de discussões .


Por conta da comemoração do ano 2000, os personagens do filme optam por uma ruptura, isolando-se nesta ilha deserta onde ficam bem distanciados do mundo no momento em que a pressão da comemoração é mais forte. Como a escolha do personagem principal, do líder, François ( Frédéric Pierrot ) reflete no tema?

Esse personagem é um pouco parecido comigo. Geralmente todas as comemorações me incomodam. Eu tenho medo de multidão; detesto festas; não sei dançar; estou sempre estragando a diversão de outras pessoas. Inicialmente este personagem foi desenvolvido com base nesta personalidade,
e depois tomou seu destaque próprio. Ir para a ilha é a última esperança para François. Ele deseja acreditar que conseguirá o que deseja. Há uma enorme força de vontade da sua parte, e então, rapidamente após esta escolha, vem o medo de ter feito uma má escolha, e isso vai diferencia-lo dos outros personagens.

Depois de excluir-se do mundo, ele se torna marginalizado do grupo, do seu amor, e finalmente, distanciado dele mesmo. Ele vai para a mais extrema forma de solidão. Talvez ele foi para a ilha para desaparecer, não importa o significado do seu desaparecimento: um refugio ou um suicídio. Geralmente, eu digo que não sei o que acontece com ele: se desaparece, se morre sufocado, se tem um acidente; alíás, quanto mais ambíguo for o final, melhor será. Assim sendo, se abre uma infinidade de finais, permitindo uma infinidade de interpretações(e mistério ), as quais, se mais explícitas soariam como por demais fantasiosas. Eu estava interessado em substituir o evento da transmissão mundial desta data, por uma forma de comunicação mais pessoal e intima, o que a tornaria mais forte. Ao lado disso, há algo muito especial neste cerimonial sobre o desaparecimento, da forma que isso acontece: com a morte do burro ­ um sacrifício ­ e a subida para o local onde está o farol: isso é o desdobramento de um rito de passagem muito íntimo e, penso, é de efeito mais poderoso que o desfile de tanques do
exército descendo o Champs-Elysees. Este também é um jeito de dizer que, fugindo de um acontecimento podemos criar um outro acontecimento de maior efeito, de maior impacto.


Porque você escolheu este cenário? Temos a impressão de que a ilha se tornou um personagem separado, com suas duas marcas: o farol e o sinal da estação.

Eu sempre tive uma atração pelo Mediterrâneo, sua luz, suas rochas. Eu gosto de fazer meus filmes lá, mas também gostaria de sair dos clichês da temperatura e imagens ligadas ao Natal. Esse cenário realmente muda as coisas. Lá havia algo quase que sufocante como um forte cenário, e eu não queria exagerar isto, daí então guardei isso mais como um pano de fundo. Mas, é bem verdade, se o sinal da estação é o ponto de referência do grupo, o farol é o ponto de referência de François. Nisto há uma ligação óbvia: um lugar de solidão que olha diretamente, sem que ninguém saiba dizer para onde - um lugar rodeado por uma grande e movimentada faixa que identifica a ilha: SANGUINAIRES. Eu também queria substituir aquela impressão que se tem do paraíso clássico que sempre tem palmeiras balançando, por um paraíso árido que não se deixa domesticar - esse é o que corresponde mais com a minha idéia de paraíso. Eu também desejava substituir a imagem artificial do ano 2000 por uma imagem de naufrágio, coisas da minha infância. Estas foram sustentações básicas do filme. Eu prefiro a idéia de naufrágio que a idéia de "cyberspace" . . .

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