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Press Book Estréia: 18 de Fevereiro de 2000 BUENA VISTA SOCIAL CLUB Um filme de Wim Wenders Alemanha, 1999 / 101min Seleção oficial do Festival de Berlim de 1999 - hors concours Melhor documentário de 1999 - Associação de Críticos de Nova York, Associação de Críticos de Los Angeles e Associação Nacional de Críticos dos Estados Unidos (National Board of Review, USA) Melhor documentário de 1999 - European Film Awards "Qualquer pessoa que tenha pulso vai querer se juntar a este clube." Eddie Cockrell, Variety "Um documentário que mistura música com lampejos impressionistas da vida urbana de Cuba. As apresentações ao vivo são carregadas de tamanha alegria, camaradagem e orgulho nacionalista que o espectador passa a acreditar que fazer música é a chave da longevidade e do bem estar espiritual." Stephen Holden, The New York Times SINOPSE O premiado músico Ry Cooder compôs a trilha sonora de vários filmes de Wim Wenders, incluindo Paris, Texas e O fim da violência. Agora, Wenders volta sua câmera para Ry Cooder. Em 1996, Cooder juntou alguns dos maiores nomes da história da música cubana para gravar o álbum Buena Vista Social Club, premiado com o Grammy. Inspirado pelo álbum, este documentário inclui participações de músicos lendários como Ibrahim Ferrer, Rubén González, Eliades Ochoa, Omara Portuondo, Compay Segundo e muitos outros músicos cubanos, além do próprio Ry Cooder e de seu filho Joachim. Fascinado por estes personagens incríveis e sua música extraordinária, Wenders foi até Havana para documentar a cooperação e a amizade entre Cooder e seus amigos veteranos, agora conhecidos em Cuba como os superavôs. Filmou também suas
apresentações em Amsterdã e no Carnegie Hall, em Nova
York, em abril e julho de 1998.
A HISTÓRIA DO FILME O músico Ry Cooder e o cineasta Wim Wenders se conhecem há mais de 20 anos. Enquanto trabalhavam na trilha de O fim da violência, em 1996, Cooder não parou de falar sobre sua viagem à Cuba e sobre o disco que gravou lá, com velhos músicos cubanos - alguns dos quais tinham caído no ostracismo. Pouco depois, o CD Buena Vista Social Club foi lançado com enorme sucesso. Quando Ry Cooder voltou a Cuba em 1998, para gravar um álbum solo com Ibrahim Ferrer, Wenders o acompanhou com uma pequena equipe, registrou a performance dos músicos no estúdio e recuperou histórias de suas vidas em Havana. A filmagem continuou em Amsterdã, onde o Buena Vista Social Club fez duas apresentações, e terminou em Nova York, num concerto triunfante no Carnegie Hall. OS MÚSICOS (Em ordem alfabética) Octavio Calderón Joachim Cooder* Ry Cooder* Angel Terry Domech Ibrahim Ferrer* Ibrahim Ferrer Jr Manuel Galban Roberto Garcia Hugo Garzón Carlos González Juan de Marco González* Rubén González* Pío Lyvea* Manuel "Puntillita" Licea* Orlando "Cachaito" López* Manuel "Guajiro" Mirabal* Eliades Ochoa* Gilberto "Papi" Oviedo Alejandro Pichardo Yanko Pichardo Omara Portuondo* Jesus "Aguaje" Ramos Salvador Repilado José Antonio Rodriguez Compay Segundo* Benito Suárez Barbarito Torres* Amadito Valdés* Alberto "Virgilio" Valdés Lázaro Villa * entrevistados no filme IBRAHIM FERRER Ibrahim Ferrer nasceu num clube de dança de São Luiz, cidade perto de Santiago de Cuba, no dia 20 de fevereiro de 1927. Sua mãe morreu quando tinha 12 anos e ele passou a ganhar seu sustento cantando nas ruas de Santiago. Um ano depois, formou com seu primo Pineo um grupo para animar festinhas privadas chamado Jovenes del Son. Mais tarde, cantaria com a melhor orquestra de Santiago de Cuba, a Orquestra Chepín-Chovén, conjunto de jazz muito influente liderado por Electo Rosell, compositor de um dos maiores sucessos de Ibrahim, El platanal de Bartolo. Em 1953, Ibrahim começou a trabalhar com o grupo de Pancho Alonso em Santiago. Seis anos depois o grupo se mudou definitivamente para Havana, onde ganharam um novo nome, Los bocucos, derivado de um tipo de tambor usado no carnaval de Santiago. O grupo desfrutou de grande popularidade com canções como Mi quinbin e El plantanal de Bartolo, mas Ibrahim precisaria esperar até 1996 para gravar um bolero à altura de suas qualidades (a canção Dos Gardenias, de Isolina Carrillo, que ele interpreta com o Buena Vista Social Club). Enquanto os outros participantes do Buena Vista Social Club tiveram alguma fama tanto dentro como fora de Cuba anteriormente, Ibrahim Ferrer nunca obteve o merecido reconhecimento. Foi uma autêntica descoberta das sessões do Buena Vista Social Club. Seu grande sucesso fez com que Ry Cooder produzisse seu primeiro álbum-solo e uma turnê da Orquestra Ibrahim Ferrer pela Europa e pelos Estados Unidos. "Eu me belisco o tempo todo", diz Ibrahim. "Quando era mais jovem, pensei que viajaria o mundo com minha música. A única chance que tive foi quando fui à Europa em 1962. Lembro-me que foi bem na época da crise dos mísseis, e depois de tocar em Paris e na Europa Oriental, com a orquestra de Pacho Alonso, não pude voltar para Cuba. Precisei esperar o fim da crise para voltar para casa. Depois, nada mais aconteceu por 35 anos, e agora estou vivendo o sonho da minha juventude no corpo de um homem velho. Quero gravar outro CD de sucesso!" COMPAY SEGUNDO Jovem aos 90 anos, Compay Segundo é um elo vital na história da música cubana, ainda hoje capaz de compor com paixão, humor e energia. Nasceu Francisco Repilado em Siboney, nas montanhas do lado lesta da ilha, mas cresceu em Santiago. Nos anos 20 já era exímio tocador de violão. De dia trabalhava nas plantações de tabaco e como barbeiro, antes de se dirigir aos bares locais, onde tocava à noite. Aos 15 anos, compôs Yo Vengo Aqui, a primeira de centenas de composições. Compay também estudou clarineta e, quando chegou aos 20 anos, já era músico da Banda Municipal de S antiago, regida pelo professor Enrique Bueno. Não foi apenas o talento abundante de Compay Segundo que o fez uma lenda. Ele também inventou seu próprio instrumento, que ele chama de armônico, apesar de ser mais conhecido como trilina. O instrumento tem sete cordas, dobrando a terceira corda do violão convencional. Compay visitou Havana pela primeira vez em 1929, mas só foi se mudar para lá em 1934, depois de tocar na cidade com quinteto Nico Saquito. O grupo voltou para Santiago mas Compay ficou para se juntar à Banda Municipal de Havana. Não demorou muito para que se juntasse ao quarteto de Juan Garcia e viajasse para o México com o grupo, em 1938. De volta a Havana, no ano seguinte ele se juntou ao conjunto Matamaros como clarinetista, e nele ficou por 12 anos. Ao mesmo tempo, embarcou naquele que talvez tenha sido o empreendimento mais bem sucedido de sua carreira. Num dia de 1942, enquanto cortava o cabelo de Lorenzo Hierrezuelo, os dois resolveram formar um duo batizado de Los Compadres. Compay se lembra: "Esse foi um período ótimo. A gente fazia barulho", brinca. Em 1956, o músico formou o grupo Compay Segundo y sus Muchachos, em atividade até hoje. Seu filho, Salvador, toca baixo no conjunto, que assinou contrato com a gravadora East West. Ry Cooder sintetiza Compay Segundo: "O último dos melhores, o oráculo, a fonte, aquele que representa a fonte de onde tudo flui." RUBÉN GONZÁLEZ Rubén González poderia ter sido um pianista clássico ou um doutor. Mas preferiu se tornar nome fundamental da música cubana. O som de seu piano criou tendências e estilos por mais de meio século. Agora com 77 anos, Rubén se formou no Conservatório Cienfuego, em 1934. Em seguida foi estudar medicina, pensando em trabalhar como médico de dia e como músico à noite. Mas os ritmos de Cuba estavam em seu sangue e falaram mais alto. Em 1941, abandonou os estudos e se mudou para Havana para ser músico full time. Em um ano, já se estabeleceu no conjunto do grande Arsenio Rodriguez, além de ter tocado com Mongo Santarrita na Orquestra de Los Hermanos. "Nos anos 40 havia uma verdadeira vida musical em Cuba. Havia muito pouco dinheiro mas todo mundo tocava porque queria", ele se lembra. Hoje, é o único que ainda está vivo de um trio de importantes pianistas do período. Com Luis Martinez e Peruchin, Rubén González ajudou a moldar o futuro da música cubana, desenvolvendo o mambo e incorporando harmonias modernas do jazz. "Tudo o que você ouve hoje na música cubana vem deste período brilhante", ele diz. Enquanto tocava em conjuntos, Rubén González desenvolveu um estilo pessoal. "Arsenio me disse para não me preocupar com os outros, queria que eu tocasse do meu jeito e não imitasse ninguém." Depois de viajar para o Panamá e a Argentina, onde tocou com músicos de tango, Rubén voltou para Havana para integrar bandas de cabarés e clubes como o Tropicana. Nos anos 60, juntou-se a Enrique Jorrin, o criador do cha-cha-cha. Ficou com ele por 25 anos, até a sua morte, quando assumiu a banda por um breve período. Não gostou da responsabilidade extra e se aposentou pouco antes de ser tentado novamente para a música com o projeto de Ry Cooder. MANUEL ŒGUAJIRO? MIRABEL VAZQUEZ Trumpetista que aprendeu a tocar com seu pai, Manuel ŒGuajiro? começou a tocar profissionalmente em 1951. Foi convidado para a banda de jazz Swing Cassino em 1953, antes de formar o Conjunto Rumbavana, três anos mais tarde. Em 1960, juntou-se à
Orquestra Riverside, cujo cantor, Tito Gomez, lhe deu o apelido, Guajiro.
Depois, tocou com a orquestra do cabaré Tropicana, dirigida por
Armando Ramer, e a orquestra do ICRT, rádio oficial do governo.
OMARA PORTUONDO Única mulher a participar do álbum Buena Vista Social Club, Omara é conhecida como uma das glórias da música cubana e talvez seja a melhor cantora de boleros da ilha. Começou com o quarteto de Orlando de la Rosa e depois integrou a banda só de mulheres Anacona. Em 1952, juntou-se ao quarteto de Aida Diestro, com quem ficou 15 anos. Paralelamente, tocou sua carreira solo e, agora, dirige sua própria orquestra. Ela viajou o mundo exaustivamente e já trabalhou com Nat King Cole e Edith Piaf. ORLANDO LOPEZ VERGARA (CACHAITO) A família Lopez é praticamente um sinônimo de baixista em Cuba. O pai e o tio de Cachaito, Orestes e Israel, foram ótimos músicos que aprenderam a tocar com o pai, Pedro. Nos anos 30, os irmãos Lopez reinventaram a forma de se tocar baixo. Enquanto Orestes, com Arsenio Rodriguez, ajudou a criar o ritmo do mambo, Israel, conhecido como Cachao, desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento do estilo "descarga". Cachaito, quando jovem, flertou com o violino, mas acabou mesmo no baixo. Aos 12 já tocava para a Orquestra Riverside, grupo dançante imensamente popular na época. Depois foi chamado por seu tio para tocar por um dia com a banda Arcana e Suas Maravilhas, que já atuava desde os anos 30, e impressionou tanto seus integrantes que acabou ficando. Dono de versatilidade impressionante, nos anos 60 Cachaito foi contratado pela Orquestra Sinfonica Nacional. Certa vez, tocou Beethoven no começo da noite e emendou a madrugada tocando baixo elétrico num barzinho. Ele preferia, no entanto, o baixo acústico. Tinha um profundo amor pelo jazz, influenciado por Charles Mingus. MANUEL LICEA ŒPUNTILLITA? ŒPuntillita? começou a cantar aos 7 anos e se juntou à Orquestra Liceo em 1941. Alcançou imensa popularidade nos anos 50 como o cantor principal de uma das grandes bandas de Havana, ao lado de Adolfo Guzman, Roberto Faz e Cascarito. Também cantou com a lendária Sonora Matancera. IO LEVYA Pio Levya compôs alguns dos mais conhecidos clássicos da música cubana e é uma das personalidades mais populares da ilha, conhecido em todo canto como o ŒMontunero de Cuba?. Aos seis anos, ganhou um concurso de bongo. Fez sua estréia como cantor em 1932. Com uma voz profunda, Pio Levya gravou mais de 25 discos desde que assinou seu primeiro contrato com a gravadora RCA, em 1950. Também é conhecido como um grande improvisador. Cantou nas bandas dos grandes Benny More, Bebo Valdez e Noro Morales, e por algum tempo integrou o grupo Compay Segundo y Sus Muchachos. ELIADES OCHOA De uma família musical, Eliades começou a cantar e tocar violão aos seis anos. É carinhosamente conhecido como "Guajiro" porque é um homem do campo, e faz questão de usar um chapéu típico para prová-lo. Na adolescência tocou em bares e bordéis de Santiago. Ganhou o seu próprio show de rádio com 17 anos, e na década de 70 foi contratado pela Casa de la Trova, o clube mais celebrado da cidade. Em 1978, assumiu o quarteto Patria, uma instituição de Santiago desde 1940, expandindo o seu repertório e viajando pelo mundo com o grupo. RY COODER Ry Cooder começou uma bem sucedida carreira solo no começo dos anos 70, quando lançou uma série de discos com sua guitarra temperada pelo blues. Ao longo dos anos incorporou ainda influências do Gospell, música havaiana e Tex-Mex. Entre as várias trilhas sonoras que Ry Cooder compôs para o cinema estão as de Ruas de fogo, Crossroads e Segredos do poder, entre tantos outros. Mas sua colaboração mais sólida certamente é com o cineasta Wim Wenders. Cooder é autor da trilha de Paris, Texas. A música teve uma carreira tão bem sucedida quanto a do filme. Ry Cooder se define como um músico-viajante, aspecto que sempre transpareceu em gravações como Paradise and lunch, Bop till you drop e Borderline. "Minha música é uma caça ao tesouro. Você cava e às vezes acha alguma coisa. Em Cuba, a música flui como um rio. Ela cuida de você e te constrói novamente, de dentro para fora". Pensamento que inspirou Wim Wenders: "Quero fazer um filme que flutue nesse rio. Que não interfira
no seu curso, apenas o siga."
O DIRETOR Wim Wenders nasce em Düsseldorf, Alemanha, em 14 de agosto de 1945. Entre 1964 e 65 estuda medicina e filosofia mas, insatisfeito, abandona os cursos. Em 1966 muda-se para Paris, onde fica por dois anos. Depois vai estudar na Academia de Cinema e Televisão de Munique, quando começa também a escrever críticas de cinema para as publicações Filmkritik e Süddeutsche Zeitung. Em 1975, funda a companhia de produção Road Movies. Em 84, torna-se membro da Academia de Artes de Berlim e cinco anos depois é feito doutor pela Universidade de Sorbonne, Paris. Entre 1991 e 1995 trabalha como diretor da Academia de Cinema Européia, da qual torna-se presidente em 1996. Wim Wenders assinou seu primeiro longa-metragem em 1970. Verão na cidade anunciava o surgimento de um autor vigoroso, que traria nova lufada de criatividade ao cinema alemão. Em 1972, O medo do goleiro diante do pênalti, narrativa desconcertante sobre um jogador de futebol que estrangula uma jovem depois de ser expulso de campo, deu ao cineasta o primeiro reconhecimento internacional - o Prêmio da Crítica no Festival de Veneza. Em O amigo americano, de 1977 (livre adaptação do romance Ripley?s game, de Patricia Highsmith) iniciou um processo que o levaria aos Estados Unidos. Depois da conturbada produção de Francis Ford Coppola, Hammet - O falcão maltês, Wenders assinou a obra-prima Paris, Texas, que levou a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1984. Em 1987, ganhou o prêmio de melhor direção no mesmo festival com Asas do desejo, que mostra a cidade de Berlim pelos olhos de anjos, em preto-e-branco. Em 1995, Wim Wenders co-dirigiu Além das nuvens com um de seus mestres cinematográficos, Michelangelo Antonioni. Em 1997, O fim da violência foi exibido na soirée que comemorou o cinqüentenário do Festival de Cannes. Seu mais novo filme, The million dollar hotel, co-escrito por Bono Vox (vocalista do grupo irlandês U2) e estrelado por Mel Gibson, inaugura a 50ª edição do Festival de Berlim, no dia 9 de fevereiro. Wim Wenders também possui uma sólida obra documental, menos numerosa porém não menos importante
do que seu trabalho na ficção.
Em 1980, filmou os últimos momentos de um de seus cineastas favoritos, Nicholas Ray (diretor de Juventude transviada, Johnny Guitar e Delírio de loucura, entre outros títulos fundamentais do cinema americano dos anos 50). O filme de Nick, de 1980, é considerado um dos documentários mais perturbadores e polêmicos já feitos. Em 1985, sua paixão pelo cinema de Yasujiro Ozu o levou a filmar Tokyo-ga, retrato da capital japonesa. Em 1989 assinou Notebook on cities and clothes, e em 1996 co-dirigiu, com alunos da Academia de Cinema de Munique, A trick of the light. FILMOGRAFIA 1970: Verão na cidade 1971: O medo do goleiro diante do pênalti 1972: A letra escarlate 1973: Alice nas cidades 1975: Movimento em falso 1976: No decorrer do tempo 1977: O amigo americano 1980: O filme de Nick 1982: Hammet - O falcão maltês O estado das coisas 1984: Paris, Texas 1985: Tokyo-Ga 1987: Asas do desejo 1989: Notebook on cities and clothes 1992: Até o fim do mundo 1993: Tão longe, tão perto 1994: O céu de Lisboa 1995: Além das nuvens (co-dirigido com Michelangelo Antonioni) 1996: A trick of the light (com alunos da Academia de Cinema de Munique) 1997: O fim da violência 1999: Buena Vista Social Club The million dollar hotel
ENTREVISTA COM WIM WENDERS Qual foi a sua principal motivação para fazer este documentário: ter ouvido o álbum ou ter testemunhado o entusiasmo de Ry Cooder pelo projeto? Foi o entusiasmo de Ry e seu desejo de voltar a Havana o quanto antes o que me deixou mais curioso num primeiro momento. Ry e eu estávamos trabalhando na trilha de O fim da violência, em Los Angeles. Ele tinha acabado de voltar de Cuba, onde gravara Buena Vista Social Club, e me deu uma fita cassete com uma versão ainda não completamente mixada do trabalho. Imediatamente fui fisgado pela música, que fiquei ouvindo todos os dias, por meses a fio. Ele me contou histórias incríveis sobre Ruben, Compay e Ibrahim, e me trouxe livros e fotos sobre Cuba. No fim, disse a ele: "Me avise quando for de novo porque eu quero te acompanhar." O que fizemos dois anos depois, quando ele voltou lá para gravar o álbum solo de Ibrahim Ferrer. Você ficou mais atraído pelas histórias dos músicos ou pela música em si? Não separaria os dois. A música é tão emotiva, rica, e cheia da história de vida deles que fica difícil separar. A música sempre teve um papel importante em seus filmes. Quando você ouviu pela primeira vez a Buena Vista Social Club, que qualidades em especial se sobressaíram? O que primeiro me veio à cabeça quando ouvi o disco, ainda sem ter uma idéia precisa de quem eram as pessoas que tocavam aquilo, foi um sentimento de leveza e de uma alegria contagiante. E havia também um profundo sentimento de honestidade e experiência por trás daquele som. Você trabalhou com outros músicos incluindo U2 e Nick Cave e, se não me engano, começou como um jornalista da área de rock. Como cineasta, qual a importância da música
para você?
A música é uma fonte constante de inspiração e energia, e minha parte favorita de todo o processo de realização de um filme é esse tempo precioso da montagem em que você vê imagem e música casados pela primeira vez. Qualquer que tenha sido a dor ou a dificuldade da filmagem, neste momento tudo vale à pena.
Quais técnicas e formas de aproximação são necessárias para se fazer um filme sobre música? Deve ser muito diferente do processo de realização de filmes como Asas do desejo ou O fim da violência? Claro que sim. Mas também é diferente do que simplesmente "fazer um documentário." Os músicos foram se tornando personagens de ficção, e quando finalmente chegamos a Nova York, senti como se realmente tivéssemos contado uma história e fechado um círculo narrativo. Fiz outros documentários em longa-metragem, como Tokyo Ga e Notebook on Cities and Clothes, mas estes funcionavam mais como diários pessoais. Em Buena Vista Social Club, tentei permanecer um observador objetivo - ou pelo menos o tanto quanto fosse possível. Quanto à técnica, bem, nós filmamos em Digi-Beta, quase tudo com steady-cam, o que deu ao filme grande fluidez. Quanto ao approach foi simples: tentei fazer justiça com essas pessoas incríveis e deixar a música falar por ela mesma. Mas eu não acredito que a técnica ou o approach possam definir um filme. O que conta, no fim, é a atitude das pessoas por trás das câmeras em relação às que estão na frente. Então, espero que transpareça que nós os amamos. E espero que sua humildade e generosidade jamais tenha sido explorada por nós. Houve muitas dificuldades para filmar em Cuba? Tivemos o apoio do ICAIC, o instituto de cinema do governo. É claro que obter equipamentos se tornou uma dificuldade, porque todos lá são antigos e mal conservados. Os cubanos estão sofrendo muito, em todos os aspectos de sua vida diária, com a falta de suprimentos que é produto deste embargo anacrônico e obsoleto
que ainda está em vigor.
Qual foi o papel de Ry Cooder na realização do filme? Quase não há música no filme que não seja tocada ao vivo. Em Havana, Ry estava profundamente envolvido na produção musical do disco de Ibrahim Ferrer, e era muito mais fácil filmar com os outros músicos do que com ele. Depois de um tempo, ficou claro que filmar no estúdio onde ele estava trabalhando era um problema, e nós, é claro, deixamos que Ry se concentrasse na gravação das músicas. Ele se envolveu muito mais durante o processo de montagem e edição de som. Mixou toda a parte do concerto ele mesmo, e teve um papel importante no corte final, como na narração, por exemplo. Ry Cooder o descreveu como um sujeito que adora música. Pode nos falar um pouco mais sobre seu gosto musical? Eu não toco música, só toco discos, apesar de ter tentado aprender clarineta e saxofone. Mas coleciono discos de vinil e CDs e ouço música sempre. Gosto muito de alguns CDs com trilhas sonoras de meus filmes, especialmente Paris, Texas (com Ry), Até o fim do mundo (com U2, Lou Reed, Peter Gabriel e outros), Ainda (com Madredeus) e O fim da violência (com Ry, Michael Stype, The Eels e outros grupos). Gosto de música clássica, blues, jazz e world music, apesar de minhas raízes estarem, definitivamente, no rock inglês dos anos 60, com The Kinks, Van
Morrison, Yardbirds, Stones e Beatles.
FICHA TÉCNICA Direção: Wim Wenders Produção: Ulrich Felsberg e Deepak Nayar Produção executiva: Ulrich Felsberg Produtor associado: Rosa Bosch Direção de fotografia e Steadycam: Jörg Widmer Montagem: Brian Johnson Produção de som: Martin Müller Produção executiva das gravações: Nick Gold, World Circuit Direção de Marketing: Jenny Adlington, World Circuit Consultor artístico:
Juan de Marco González
Em Cuba Direção de fotografia e Steadycam: Jörg Widmer Som: Martin Müller Produtor: Rafael Rey Rodriguez Produtora associada: Olga Maria Fernandez Gonzalez Iluminação: Ivan Scull Consultor musical: Sigfredo Ariel Afinador de piano: Tomaz Casanova Perera Assistente de Wim Wenders
e tradutora: Zita Marina Morrina Atia (Toti)
Em Amsterdã Direção de fotografia: Robby Müller Steadycam operator: Jörg Widmer Operadores de câmera: Claire Pijman, Theo Bierkens e Brigit Hillenius Assistente de produção: Sven Sauer Em Nova York Gerente de produção: Linda Moran Diretor de fotografia: Lisa Rinzler Operador de câmera: Richard Rutkowski Operador de Steadycam: Stephen Consentino Iluminação: Mitch Bogard Em Berlim Coordenadores do projeto:
Denise Booth e Rose-Marie Couture
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