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Verdade nas telas

Anna Muggiati

O script de Zona de Conflito (War Zone) foi parar na mão da produtora Dixie Linder, 34, há uns cinco anos. Apesar de todo o peso da história, que examina com lente de aumento a vida real de uma família inglesa, ela encarou a parada, e fez um filme que hoje está mobilizando as pessoas em vários festivais de cinema mundo afora.

Agora Dixie já foi a mais de dez festivais com a fita debaixo do braço. Dixie, que por pouco não entrou para a produtora de Quatro casamentos e um Funeral, está abrindo uma companhia com o ator e agora diretor Tim Roth. A dupla já estuda um novo roteiro. E, mesmo sem revelar detalhes, Dixie adianta que o interesse é sempre o lado humano da vida. Dixie Linder, que produziu Bent, com Sarah Radcliffe conta alguns detalhes preciosos sobre a realização de Zona de conflito.

Como foi seu envolvimento com Zona de Conflito? Por que você resolveu filmá-lo?

Eu me sinto atraída por filmes que tratam da vida das pessoas, da vida privada delas. Filmes que têm alguma substância, que tratam de situações limite.

A primeira vez que tive contato com o filme eu ainda trabalhava em desenvolvimento de projetos, na empresa que Sara Radclyffe abriu. Naquele estágio, Tim não estava ainda envolvido. Isso foi antes de que Cova Rasa fosse feito, naquela época Danny Boyle ainda não era um diretor quente e ele é que seria o nosso diretor. Ele trabalhou com a gente no roteiro por um ano e meio, e enquanto isso a gente procurava financiamento para poder produzir o filme. Estávamos quase conseguindo, quando Danny acabou saindo para fazer Trainspotting. Então procuramos outro diretor, mas foi difícil encontrar alguém que compartilhasse a mesma visão que tínhamos sobre a história e alguém com quem os financiadores ficassem confortáveis. Tivemos a idéia de chamar Tim, porque ele há muito tempo estava querendo dirigir. Vinte e quatro horas depois de ler o roteiro ele decidiu aceitar o desafio. Como produtor você tem que ter uma visão bem ampla do filme. Tratar desde burocracia e do financiamento até os detalhes mínimos de quem vai trabalhar com você para garantir a harmonia da filmagem. E outro lado é deixar o diretor livre para fazer o filme que ele quer fazer. Depois, mais tarde, quando o filme começa a rodar você se transforma num resolve tudo.

E a locação? Foi difícil encontrar aquele lugar tão desolador?

Quem encontrou aquele lugar foi nosso designer, que é australiano e surfa. Ele conhecia o local. E, por coincidência , Tim costumava brincar lá quando era criança . A gente construiu o bunker lá. A casa foi outra coincidência. A gente pôs um anúncio para achar alguém que quisesse ficar longe de casa por uns três meses e anunciamos na Time Out. Era uma casa que tinha acabado de perder o forro depois de uma ventania e ela acabou sendo alugada. Foi fácil assim criar aquele ambiente de abandono e depressão, um ambiente torturante.

Como foi trabalhar com Tim Roth, assistir a transformação do ator em diretor?

No inçio eu confesso que fiquei bem nervosa. Como ele é ator, eu estava um pouco preocupada com isso. Mas tive uma ótima surpresa. Ele é super simples e pé no chão, um cara cuidadoso e sensível. Ele realmente é controlador no melhor dos sentidos, e conhece cada milímetro de uma produção. Ele trabalha com muita paixão e cuidado pelo que faz. Pensávamos que ele seria muito hábil com os atores mas precisaria de uma certa assistência no lado técnico. Mas o que descobrimos foi que mesmo como ator ele era tão bisbilhoteiro que nunca ficava descansando no trailer. No começo ele ficou também um pouco nervoso em deixar de lado seu trabalho de ator, mas isso passou. Levamos quase dois anos para deixar o roteiro no ponto, e enquanto isso, ele continuou trabalhando em outros filmes. Afinal, de dezembro a setembro ele ficou filmando em tempo integral e depois, a partir de janeiro desse ano ele trabalhou na promoção do filme.

E qual foi a resposta que vocês tiveram até agora?

Uma resposta muito interessante e surpreendentemente boa. Pois sempre soubemos que o filme é difícil. O único país em que temos tido dificuldades, na verdade, é a própria Inglaterra.

Será porque vocês estão lidando com um tabu? Mexer com família e sexo não é um pouco demais para os costumes tradicionalistas britânicos?

As pessoas ficaram um tanto apavoradas com o filme. E começou o velho debate se o filme é entretenimento ou não. O mais engraçado é que o filme foi rejeitado pela crítica dos jornais intelectuais, enquanto o News of the World, tablóide popular mais vendido no país, recomendou o filme fervorosamente dando cinco estrelas. Foi incrível.

Existe muito silêncio durante o filme, não seria isso que o torna tão desconfortável e difícil de digerir?

Desde o começo Tim procurou ler roteiros de filmes mudos, porque ele não queria fazer um filme muito cortado no estilo MTV e queria fazer muito uso do silêncio. O que ele explorou bastante nos atores foram as expressões fortes, e foi isso que ele procurou quando escolheu os garotos. Durante semanas eles conversaram muito sobre as relações familiares . E foram compondo os personagens assim, vendo o que realmente podiam fazer, esgotando o julgamento deles mesmos como pessoas sobre o que iriam interpretar.

Foram feitas muitas mudanças no roteiro original?

Muitas. No livro que deu origem ao roteiro o filme acontece no verão e nós trocamos isso para o inverno, e no livro também havia uma cena que nós alteramos. Nele Jessie e o irmão acabavam transando também, e nós tivemos um grande debate para decidir se faríamos aquilo ou se seria demais. Além de ser um tanto forte para o público, se é também pouco verossímil. Abuso não é exatamente um problema cíclico. As vezes vítimas de abusos sexuais podem vir a também abusarem de alguém, mas não necessariamente. Concluímos que seria um tanto insultante para as pessoas que sofreram abuso. Seria como se estivéssemos provocando-as para saber quando elas abusariam de alguém.

Ao que me parece, moralidade não é um conceito que vocês levaram em consideração.

Tim disse numa entrevista recentemente que não falaria sobre a leitura que tem da moralidade. Tim insiste em ser reticente. Mas eu acredito que existe um ponto inegociável que é bem simples: não faça isso com seus filhos. Existe o conceito do que é certo e do que é errado . Mas isso fica bem claro. No livro, inclusive, existe uma insinuação de que ela gostava de transar com o pai e pedia por isso. No filme ela encarna mais o papel de vítima. Não importa. De qualquer maneira, se uma criança pede para fazer sexo com o pai ou mãe, a resposta deve ser não. Resumindo, são crianças e é papel dos pais criar essa referência, esse limite.

Mergulhar a fundo na vida das pessoas sem qualquer medo ou maquiagem. É essa uma característica forte dos filmes britânicos produzidos hoje?

Não acho que seja apenas uma tendência de hoje. Os filmes da televisão, por exemplo têm esssa tradição há algum tempo. O diretor Alan Clarke, por exemplo, que é uma grande influência no trabalho de Tim. Isso sem falar nos filmes de Ken Loach. Não acho que seja um movimento de pessoas fazendo esses filmes, mas existe sim uma característica da cultura britânica, que gosta de explorar esse lado humano. Pena que sejam mais os diretores do que os financiadores, que também temem esse gênero de filme, porque quando ele chega no mercado, eles ficam sem saber o que fazer com o filme. Existe um mito de que as pessoas não querem assistir esses filmes, o que não é verdade. Porque existem pessoas que querem entrar no cinema e experimentar a história, acaba criando um certo medo no público, o que não é nem um pouco saudável.

Então acaba sendo a velha briga entre o comercial e os independentes?

O mercado insiste em que não há pessoas com vontade de assistir a esse tipo de filme. Nós achamos que todo o tipo de filme tem seu público. Guerra nas Estrelas está aí, a Múmia também. Porque não ocupar esse outro espaço? Não queremos dizer para as outras pessoas não assistirem aos grandes filmes, mas lutamos pelo direito de escolha do público. Seria uma brincadeira de mau gosto dizer que entramos num mercado para competir com Guerra nas Estrelas . Mas o mercado não deveria temer e ser tão preconceituoso contra um ou dois filmes em cartaz que tem algum conteúdo.

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