Não. Eles não deram a entrevista grudados como estão no ultra
criativo Twin Falls Idaho, filme que conta a história dramática, mas
inesperadamente bem humorada, de dois irmãos siameses que chegam à vida adulta ainda
ligados numa relação de simbiose. Os gêmeos idênticos Mark e Michael Polish usaram a
idéia para construir um metáfora de sua relação. E se deram melhor do que podiam
imaginar na primeira produção de sua carreira de roteiristas, atores e diretores. O
filme que eles fizeram, o modesto Twin Falls Idaho, está tendo uma carreira de
sucesso meteórico em vários festivais internacionais. Foi surpreendentemente bem
recebido em sua terra natal, os Estados Unidos. Nessa entrevista exclusiva, Michael e Mark
falam das dificuldades de caminhar por território tão delicado.
Quando vocês decidiram e tiveram o insight de tratar de um assunto tão estranho na
tela de cinema?
Michael _A gente não achava que esse seria nosso primeiro filme. Ele estava na
cabeça, e como motivação pensamos que uma vez que éramos meros desconhecidos talvez as
pessoas pensassem que nós fôssemos realmente gêmeos siameses. E começamos a ficar
animados com a idéia. Mas antes precisaríamos testar a viabiidade da idéia. Então, com
a idéia na cabeça a gente resolveu testar a fórmula mesmo antes de escrever todo o
roteiro, apenas para testar se era possível passar a idéia de realidade. A gente fez a
roupa primeiro e andamos juntos e grudados para ver se dava certo. Aí que caímos na real
e vimos a dificuldade do lance.
Mark _ A gente concluiu que só poderia convencer o público se nós mesmos
acreditássemos na possibilidade de interpretar nosso roteiro. Então nós decidimos fazer
o filme depois de fazer o terno duplo.
Porque vocês acham que o filme faz como que vocês toquem em vários aspectos
emocionais nas pessoas?
Mark _ Ele é meio universal porque como não existem muitos diálogos as pessoas podem
vê-lo assim como se estivessem assistindo a vários quadros. E assim acabam sendo tocadas
pelo sentimento que queremos passar, podem saber o que está se passando interiormente sem
terem que se envolver com a linguagem. É um filme simplesmente sobre o amor.
Vocês usam e abusam do silêncio. Isso é também um reflexo da relação de
vocês, como irmãos gêmeos?
Michael _ Sim, adoramos o silêncio.
Mark _ A gente fala muito pouco. Eu sei o que ele está pensando e penso da mesma
maneira.
Michael _ É isso não acontece todo o tempo, mas a maior parte do tempo e acaba sendo
muito bem humorado.
Então foi quase como uma brincadeira de crianças?
Michael _ Sim, a gente queria testar as coisas.
E quando vocês viram a tragédia de estar grudados vocês ficaram chocados ou
aquilo provocou um tipo de humor negro?
Michael _ A primeira intenção era ser humorado, mas depois, quanto mais nos
envolvemos com os personagens mais a gente ficou consciente de todas as limitações que a
situação impõe. Foi quando a gente começou a capengar junto que percebemos a
dramaticidade e a tragédia de estar daquela forma.
Vocês disseram que são influenciados especialmente por Kieslowski. O que
exatamente impressiona vocês na trilogia dele?
Michael _ Não só o realismo como a marcação das cenas. Principalmente porque as
pessoas falam umas com as outras e não fazem constatações. As pessoas simplesmente
interagem sem qualquer problema.
Mark _ O cinema, nas mãos dele é um meio difusor de arte tão grande. O que
aprendemos com ele é que você não precisa exagerar e ser tão grandioso na tela porque
ele já é um meio maravilhoso por excelência. Nossos personagens, se tratássemos de
outra maneira, poderiam parecer caricaturados, então foi super útil lançar mão do que
Kieslowski ensina. Deixar a dramaticidade nas entrelinhas.
Michael _ A gente poderia ter feito uma coisa meio excessiva. Optamos por algo que
aparentasse um pouco real.
Mas vocês sempre dão um toque de magia quando usam a cor, não é?
Michael _ Sim. Por exemplo, quando você entra no quarto, a nossa intenção é que
você sinta como é a vida deles, e não apenas o que os personagens sentem. O próprio
isolamento do quarto. E para dar ao espectador o sentimento de claustrofobia, numa
analogia à condição dos rapazes.
Bom, qual foi a motivação para que vocês fizessem esse filme?
Mark _ Primeiro foi realmente de realizar algo que fosse fruto de nossa criatividade.
Sempre fizemos isso com nosso pai, que é construtor. Então a gente trabalhava junto,
fazendo um portão, uma casa. Mas a gente sempre se interessou mais por arte. Então a
gente resolveu pegar as regras de construção quando a gente decidiu se empenhar no
roteiro. E foi assim, eu queria ser ator, e ele queria dirigir. E como vimos que tínhamos
idéias muito próprias decidimos que melhor seria que nos escrevêssemos a nossa
história.
Então a intenção não era destruir o coração das pessoas?
Michael _ Nunca! A gente queria contar uma boa história, isso sim. A gente tinha
idéia de que essa história seria delicada, mas não de deixar as pessoas arrasadas.
Mark _ Quem faz o filme é quem o vê. Cansei de falar com gente que disse, "é,
isso é legal". Mas outros simplesmente desabam, como aconteceu com uma menina aqui.
Depende de quem vê o filme.
Mas vocês não acham que acima de tudo o que vocês querem é compartilhar uma
situação extrema de humanidade?
Michael _ Exatamente. Muito dos críticos nos Estados Unidos elogiam o filme como o que
finalmente traz uma abordagem diferente da sensibilidade, e uma visão masculina, feita
por homens, homens projetando uma qualidade de sensibilidade muito rara de se encontrar no
país.
E dentro desse quadro enorme de possibilidades do cinema contemporâneo, vocês
tentaram inaugurar um novo estilo?
Mark _ Não. A gente queria fazer um filme que tivéssemos prazer em ver.
Michael _ Isso está na cara. É um pouco de tudo que gostamos, inclusive da música,
com citação de tudo que gostamos de ouvir.
Mark _ Daí a gente se transformou num recipiente disso tudo, de onde saiu todo o
resultado.
Então vocês pequisaram muito para construir os personagens, até com médicos
especialistas no assunto. Vocês chegaram a conhecer alguns siameses na vida real?
Mark _ Existem mais casos desses do que a gente imagina, e eles estão realmente
escondidos. O que nos deu um certo receio em procurar algum par de siameses foi que
pensassem que a gente estava tentando retratá-las, o que passa ao largo de nossa
intenção.
Michael _ Na verdade construímos uma metáfora que tem muito mais a ver com gêmeos.
Mark _ A gente até queria encontrar com eles, mas nos Estados Unidos, tudo é ligado
à indústria. Então tínhamos que Ter proteção legal para visitar essas pessoas sem
que depois seus parentes dissessem que tínhamos usado a historia, etc... Então decidimos
ficar apenas com a opinião dos especialistas. Tudo na América vira caso para processo.
E vocês tiveram qualquer problema de mal interpretação do filme?
Mark _ Sim, algumas pessoas acharam que a gente estava usando a tela como sessão de
psicoterapia. Tipo que a gente é gêmeo e tudo era muito óbvio. As pessoas disseram que
a gente nasceu com o roteiro pronto.
Michael _ O pior foi dizer para nós que a gente não teve qualquer trabalho. Sem
direção.
Talvez parte do público tinha ficado decepcionado ao não ver qualquer cena sexual.
Vocês acreditam que as pessoas tenham ido ver o filme para conhecer o lado de mundo cão
da história?
Mark _ Com certeza. Havia pessoas que se atraíram pelo lado bizarro do filme e saíram
embasbacadas com o efeito generoso que o filme causa. Gostamos disso, de reverter a
perspectiva do filme. E daí, quando eles se emocionaram de verdade foi quando eles ficam
realmente chocados.