Carlos Saura, 67 anos, anda com a imaginação mais viva do que nunca. O
pai de Ana e os Lobos, Cria Cuervos, Bodas de Sangue e Carmen
renovou-se e mostra que está disposto a continuar reinventando o cinema. Parte pulsante e
viva da história do cinema mundial, ele esbanja bom humor e um certo encanto que prefere
chamar de otimismo. Essa vitalidade pode ser vista, não tanto em Tango (1998), no
qual ele presta mais um serviço à musica e à dança do que ao cinema, mas sim no
inédito Goya (1999), que encerra o Festival do Rio.
É o que ele garante nessa entrevista exclusiva, que deu à beira da piscina do
Copacabana Palace. Ele revela que Tango foi um facilitador para a realização de
Goya. Também revela alguns detalhes do seu processo de criação e faz algumas
confissões sobre sua maneira muito especial de enxergar o mundo.
Em Goya, ele realizou um projeto que sonhou durante anos. Mas Saura se diz
pronto para outra. Em breve estará visitando, com sua imaginação ágil, a vida e obra
de outro homem que o inspira: Luís Buñuel.
O que lhe interessou na obra de Goya?
A obra de Goya desperta coisas muito apaixonantes, mas também muito terríveis, porque
ele testemunhou uma época muito convulsiva na história do meu país, e por outro lado é
a história do pintor que está narrada pelo ponto de vista de um pintor, ou melhor, a
minha leitura do que deve ser a imaginação de um pintor. E por isso a beleza
intrínseca, o cuidado com as cores, com os elementos. Na verdade eu não consigo explicar
Goya muito bem, porque definitivamente não é um filme normal. Não é para ser
contado, e sim para ser visto. É diferente porque no fundo é fácil contar a história.
Mas o que é importante ali não é a história, mas os pensamentos.
A presença da música nos seus filmes é muito significativa.
Sempre vivi com a tradição musical dentro de minha casa. Minha mãe era pianista e eu
sempre gostei muito de música. Eu sempre escrevo ouvindo música. Às vezes tenho a
música escolhida antes de ter a história para contar. Tudo que se ouve em meus filmes
são músicas que me agradam, não há a menor possibilidade de se ouvir algo de que eu
não goste. Na verdade, a música é parte importante de minha vida e considero todos os
meus filmes, em maior ou menor grau, musicais.
Esse uso pleno e total da tela como tela de pintura, palco para dança, dramaturgia
ou música que se vê em Goya seria resultado de um pouquinho de cada um de seus filmes?
Para te falar à verdade eu não penso muito nos meus filmes anteriores.
E porque essa paixão pelo making of, seja de uma coreografia ou mesmo de um
filme? A viagem é mais importante do que chegar ao seu destino, ou seja, o produto
final?
Bom, o cinema para mim tem que ser uma aventura. Se não existe aventura não existe
qualquer interesse. E quando existe aventura é porque há espaço para o desconhecido.
Quero que quando se veja de fora não se pareça com uma aventura, mas de dentro ele tem
que ser uma aventura. Isso não quer dizer que eu sempre consiga fazer com que esse
fenômeno aconteça. Para mim cada filme é sempre um desafio.
Você se considera um perfeccionista?
Até um certo ponto. Não acho que seja necessário ser pesado demais para que as
coisas dêem certo. Por exemplo, meus takes são poucos e raramente os repito. Porque
acredito que dado um certo momento eles são todos iguais. E muitas vezes uso muito o
improviso. Gosto muito de ter liberdade para mudar as coisas. Essa possibilidade me atrai,
de inventar algo novo a cada novo dia.
Esse espaço de improviso é para desenvolver a respiração dos atores?
Exatamente. Gosto de caminhar junto com eles, dando oportunidade para que manifestem
seus desejos de mudanças.
Qual a relação da direção de arte com a sua direção?
Em Goya, principalmente foi uma relação muito explorada. A fotografia de
Vittorio Storaro, por exemplo é fundamental. Ele trabalhou comigo em três outros filmes
, em Flamenco, Taxi e Tango. Trabalhamos juntos os tempo todo,
organizando as cores, a forma de articular os cenários.
Em Tango existe uma citação de Goya. Isto foi intencional?
Quando eu filmava Tango não achava que chegaria a Goya, que é um
projeto muito antigo. Essa espécie de homenagem a Goya em Tango era porque
eu pensava que nunca conseguiria realizá-lo. Mas com todo o sucesso e receptividade que Tango
teve, um produtor me chamou e falou que era a hora certa de fazê-lo. Então Goya
só existe graças a Tango, senão nunca teria sido feito. E de alguma maneira Goya
é uma conseqüência, um produto de Tango.
Então existe uma ligação íntima entre os dois de filmes?
Sim, principalmente na fotografia. Goya é um aperfeiçoamento dos processos
utilizados na fotografia de Tango. Porque ali tudo, absolutamente tudo, é
artificial. Todas são grandes telas de plástico grandes impressas. Nada existe, mais de
90% foi feito em estúdio. Todos são grandes elementos planos fotografados e impressos no
plástico. Isso é fundamental para se construir uma sensação de realidade sem ser a
realidade cotidiana, mas uma realidade sobreposta a outra realidade. Essa transparência,
interferência, liga todos os planos de realidade nos filmes, e entrelaça os personagens,
como um elo no tempo.
Um filme se articula do filme anterior. A experiência adquirida em Tango foi
essencial para fazer Goya. Como te dizia, na cenografia, que permite que os personagens
estejam em diversos tempos simultaneamente e se misturem no seu próprio tempo de sonhos e
realidade. Sendo jovem e velho ao mesmo tempo. Este tipo de jogo é um desafio formal. Um
desafio artístico e um processo narrativo muito interessante e muito fascinante de se
fazer. E, acima de tudo, muito divertido. Se fazer cinema não é divertido, a mim não
interessa mais.
Em Tango, mas principalmente em Goya, os personagens centrais permitem
uma leitura estimulante da velhice. Como você consegue dar essa jovialidade aos velhos?
Sempre se pensa que os velhos são muito velhos. Isso não é verdade. Agora, mais do
que nunca, está se revelando que os velhos são diferentes. Eu por exemplo, com a idade
que tenho agora, 67 anos, há cem anos seria considerado um velho velhíssimo. O homem
começou a viver mais. Mais a receita principal para isso é manter a cabeça ocupada com
muitas coisas. Assim se vive, com certeza, mais tempo e melhor. Eu acredito nisso porque
sou um otimista.
Existe muita poesia na maturidade. Quando um velho é descrito por você há algo
que transparece um equilíbrio entre a ingenuidade de uma criança e a sabedoria adquirida
com os anos. É essa a idéia que você quer passar?
A velhice é um momento onde você pode rever a infância, e ver a vida de uma outra
maneira. Queria explicar que não é porque os velhos são velhos que eles sabem tudo. Na
verdade eles sabem muito menos. E isso é que é bonito. Os dois sabem a mesma coisa, ou
seja, não sabem nada. E aí é que está a poesia.
Por que sentiu-se tão atraído pela obra de Francisco de Goya?
Desde quando era muito jovem me senti atraído por ele, ele sempre me comoveu e eu me
sinto próximo dele em muitas coisas. Não consigo explicar isso de forma detalhada.
Porque tampouco quero racionalizar muito. É fato que ele é um grande pintor e que sempre
foi um homem muito ambicioso, o que o faz um dos grandes artistas do mundo, um dos poucos
que puderam misturar a realidade da imaginação da maneira mais coerente, e ele se
revelou estar nesse caminho desde muito jovem. Porque sempre deu espaço para a
imaginação sendo capaz de dimensioná-la na realidade.
O toque de política que você dá tanto em seus filmes é uma maneira que você
encontrou de acrescentar um pouco de racionalidade na paixão que serve de combustível
para os dois filmes?
É inevitável. A política também está presente na vida das pessoas. E quanto à
paixão, Goya sempre foi um homem muito apaixonado, como se vê em sua história. Aliás
esse é um elemento muito presente em vários personagens da história da Espanha. É
claro que não basta ser espanhol para ser apaixonado, mas sem dúvida nossa cultura tem
esse elemento muito forte. Está no flamenco, está em nossa música, está em outras
coisas. A política, assim, ao meu ver é simplesmente parte de nossas vidas.
E como foi tentar ter a música, um valor tão importante nos seus trabalhos, num
filme em que o protagonista é surdo, como Goya?
Isso realmente foi um processo muito interessante. Quando Goya fica surdo, ele se
aprofunda no seu interior e de alguma maneira sua obra muda totalmente depois disso. O que
é curioso é que sua obra se enriquece, e em vez de ficar pior fica melhor. Esse
isolamento que a surdez lhe produz é fundamental. Antes disso ele era um homem muito
sociável.
A luz dos quadros de Goya influenciou na luz utilizada no filme?
Sim e não. Não queríamos fazer um filme histórico ou uma biografia. Ela foi usada
como uma referência mas com muita liberdade.
Enquanto a morte é quase sempre retratada nas telas de forma muito violenta, em Goya
ela é tratada com muita delicadeza, de forma poética. Como esse conceito foi
elaborado?
Gosto muito dessa idéia. Gostei muito daquele final, que não estava escrito no
roteiro, e veio de última hora. A cena une amor e morte de uma forma muito especial, se
confunde. E achei que ele fica um tanto misterioso. Para te confessar ainda acho que
aquilo e o filme todo ficou muito misterioso.
E o que quer dizer com a espiral?
É uma imagem muito bonita. Me parece que ela funciona como um símbolo da vida, algo
que começa, e vai se desenvolvendo e já não sabemos quando se acaba. Não se pode
voltar, é uma analogia à expansão do universo.
Algo assim meio 2001, uma odisséia no espaço?
Não, o monolito de Kubrick é muito concreto, gosto mais da espiral.
E agora, como vai ser o futuro? Já existe algum projeto?
Sim, um eu não posso falar nada sobre, será feito com Lola Filmes, a mesma produtora
de Tango e Goya. Mas ainda com certeza um dos projetos do ano que vem será
um filme sobre Bunuel. Mas, assim como Goya, será uma adaptação bem livre.
Como está sua imaginação?
Agora está muito boa. Tão viva que às vezes chega a me confundir com tantas
histórias. Quero fazer coisas demais ao mesmo tempo.
O que te inspira nesse momento?
Tomar uma banho nessa piscina. (Risos).