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O dia seguinte

Alice Gomes

Desde o último dia 29 de outubro, o bom cinema brasileiro estará de volta às telas, com a estréia de O Primeiro Dia, novo filme de Daniela Thomas e Walter Salles. O Primeiro Dia é a versão para o cinema de Meia-noite, filme de sessenta minutos que a dupla fez sob encomenda para o canal de televisão francês Arte, dentro da série O Ano 2000 visto por..... (que será lançada no Brasil pelo Grupo Estação). O canal Arte convidou dez cineastas de dez países para filmar suas visões sobre a virada do milênio. Os cineastas tinham liberdade total, as únicas exigências eram que o filme se passasse na noite do Reveillon de 1999 para 2000 e que tivesse duração de sessenta minutos.

O Primeiro Dia se passa nos dois últimos dias do ano de 1999 no Rio de Janeiro, quando uma moça de classe média se encontra com um presidiário vindo da favela. Em entrevista exclusiva, Daniela Thomas fala da sua visão do filme, conta como foram as filmagens e como surgiu sua parceria com Walter Salles, como é trabalhar com ele, como é fazer um filme sob encomenda e as diferenças entre O Primeiro Dia e Meia-noite.

 

  • Como você descreveria O Primeiro Dia?
  • O filme é quase uma fábula sobre duas pessoas que não teriam nenhuma razão para se encontrar na cidade em que vivem mas que por causa de eventualidades se encontram e se amam, mas isso não pode ser levado adiante porque a realidade é dura e crua. Uma pessoa que vem do território das favelas e dos presídios e uma mulher que vem de dentro dos apartamentos da zona sul do Rio, é a cidade partida que se junta por uma noite apenas.

Este encontro está no nosso desejo inconsciente, mesmo não sendo uma coisa possível, é apenas uma utopia. As pessoas quando estão vendo o filme ficam muito emocionadas neste momento, elas torcem por este amor; um amor de uma pessoa que acabou de matar o melhor amigo com um tiro na cabeça. Isso quer dizer que é um desejo tão grande que haja uma trégua nessa guerra de sofrimentos da divisão da cidade que todas as pessoas se apaixonam pelo casal do filme.

  • O filme foi feito sob encomenda do canal de televisão francês Arte para a série o ano 2000 visto por...; como é fazer um filme sob encomenda?
  • Diferente do Waltinho, eu tenho mais facilidade com isto porque sempre trabalhei como cenógrafa e diretora de arte e a idéia de responder uma questão de outra pessoa não me incomoda, pelo contrário, me fascina. Foi ótimo. No começo estávamos um pouco reticentes, achando que a idéia de se fazer alguma coisa no Reveillon fosse ser meio chata, sem graça; a princípio não nos despertou interesse. Depois vimos que o fato de determinar um lugar, um dia e uma hora não era limitante porque podíamos usar a geografia deste local para contar a história que quiséssemos.

Acabou sendo bom este fator delimitante porque o Rio é absolutamente democrático, no Reveillon a cidade vira uma utopia. Por alguns minutos fica todo mundo igual, não tem rico e pobre, todos são irmãos. Isto foi inspirador no final das contas.

  • E a questão mítica em trono da data, a vira do milênio? A mudança que todos esperam e acreditam, inclusive os personagens do filme.
  • Acho que a mudança acontece no inconsciente de cada um. Eu não tenho mais crença nas grandes movimentações de massa, como quando era mais jovem, na época em que fui do Partido Comunista. Acho que este trabalho de mudança tem que estar na mente de cada pessoa. Eu acho legal que no cinema a gente pode trazer estes assuntos à tona e fazer as pessoas pensarem uma série de coisas.

Tenho certeza de que todas as emoções vão estar exacerbadas nesta data. Não sei se a ponto de uma mulher se matar porque foi abandonada, mas a simples idéia de ser abandonada quando todos estão se reunindo potencializa o desespero. O filme se aproveitou da potencialização psíquica que acontece neste dia. Você vê, no nosso dia-a-dia está todo mundo angustiado com este assunto; estão todos pensando o que vão fazer e onde vão passar esta noite. E isso não está se dando de uma forma tranqüila. È muito curioso como as pessoas estão levando muito a sério mesmo as pequenas decisões.

  • Como surgiu sua parceria com o Waltinho?
  • Passei muitos anos fora do Brasil e ele também, voltamos mais ou menos na mesma época e quando cheguei , em 86, vi a série que ele fez sobre o Japão e fiquei encantada. A mesma coisa aconteceu com ele, viu alguns trabalhos que eu tinha feito com o Gerald (Thomas) e passou a usá-los como referência. Então tivemos uma oportunidade maravilhosa de trabalhar juntos. Ele me chamou para ajudá-lo a solucionar um problema que ele estava tendo com uma cenário para um show do João Gilberto que ele estava filmando para um especial. Aí começamos a trabalhar juntos, eu como diretora de arte e ele como diretor. Fizemos vários vídeos e comerciais juntos até que um dia ele me contou uma estória maravilhosa que ele queria filmar. Ele me mandou o roteiro para eu ler e achei que o que ele tinha me contado era muito melhor do que o que eu li; então reescrevi quase todo o roteiro e mandei para ele. Ele jogou o roteiro dele fora e disse :"vamos começar tudo de novo". E assim começou Terra Estrangeira (primeiro filme da dupla, de 95)
  • E como é dividir a direção com ele?
  • Ah! È muito tranqüilo. Não sei se isso acontece com outras pessoas que dirigem em dupla, mas eu e Waltinho nos damos muito bem, somos muito educados e não há disputa de egos. Um respeita e admira o outro. Estávamos sempre juntos nas filmagens. Só uma vez foi preciso nos separar; na cena da perseguição na favela. Eu estava com uma gravidez de risco, sempre tinha que subir as ladeiras carregada, e nas cenas da perseguição a movimentação era grande, não pude ir.
  • E como foi filmar durante uma semana na Chapéu Mangueira (favela no Leme, zona sul do Rio)?
  • O máximo! Vimos os dois lados da vida na favela; a miséria, as drogas e as armas que são um horror; e por outro lado o convívio mais alegre e harmônico do mundo. È incrível! As crianças ficam soltas nas ruas, não tem carro, não tem ameaça nenhuma à elas; as casas são uma do lado da outra e isto não gera conflito, estão todos sempre conversando; parece um clube.
  • A urgência com que foi filmado atrapalhou ou ajudou O Primeiro Dia?
  • Ajudou muito; deu ritmo ao filme. Ela deu a cara do filme. Tivemos uma liberdade muito grande para fazer este filme e isto possibilitou que experimentássemos coisas novas, o Waltinho principalmente. Não foi um filme ao qual dedicamos anos de nossas vidas para fazê-lo e que por isso teria nos prendido muito mais. Fomos a ele muito rápido, tínhamos data de entrega. A câmera na mão, as locações, os atores da própria favela; tudo isto dá a unidade do filme. Ele tem uma sensação meio fragmentada que reflete como ele foi filmado. Os ensaios antes das filmagens foram muito sérios e ajudaram bastante.
  • Vocês dizem que este foi um filme comunitário. Como foi a divisão de trabalho entre a equipe?
  • Este filme se deve muito à força de vontade da Nanda (Fernanda Torres); ela estava muito envolvida. Teve um momento que eu e o Waltinho quase desistimos, foi na véspera do Reveillon quando íamos ter que filmar em tempo real; o Waltinho estava vindo da Bahia, onde estava filmando Central do Brasil, e ia ficar pouquíssimo tempo aqui. Durante estes dias foi ela quem batalhou para que as filmagens fossem à frente, devemos a filmagem em tempo real à Nanda. Além de tudo ela escreveu uma cena ótima da personagem dela, aquela cena da farmácia.

O roteiro foi escrito quase que a quatro cabeças; eu, o Waltinho, o João Emanuel Carneiro e o José de Carvalho que deu uma força grande nos diálogos. O Matheus Nachtergaele junto com a Cida, uma moça lá da favela, reescreveu toda a cena final dele. O Luís Carlos Vasconcelos ajudou muito na cena do Reveillon, como ele é diretor teatral e muito corporal ele foi lá e montou a cena toda. Foi tudo criado em conjunto.

  • Quais as principais diferenças entre O Primeiro Dia e Meia-noite ( versão que passou na TV francesa)?
  • O Meia-noite tem só cinqüenta minutos, isto não é uma duração razoável para o cinema. Além do que Meia-noite tem uma coisa indefinida, uma sensação inacabada, com O Primeiro Dia a gente pode terminar o filme. Fizemos cenas novas e alguns personagens foram mais desenvolvidos.
  • O que você achou da série O Ano 2000 visto por...?
  • Achei muito legal. Tenho muito orgulho de fazer parte do que podemos chamar de um grupo de cineastas independentes. Tenho prazer em ver os filmes que eles fazem e ser considerada uma deles porque é um cinema inteligente, livre, despojado, humano e não preocupado com a bilheteria. È um cinema de idéias. É uma delícia encontrar com estas pessoas pelo mundo, nos festivais de cinema, nas salas de cinema de arte, na televisão francesa e alemã, duas grandes incentivadoras do cinema inteligente e da televisão inteligente.

Eu e o Waltinho fomos chamados para fazer este trabalho única e exclusivamente por causa do nosso trabalho anterior, Terra Estrangeira, que foi muito elogiado na França.

  • Você vê algo de especial na figura do suicida?
  • Não necessariamente. Este filme é um filme de movimentos dramáticos e sentimentos exacerbados, não é fácil, não tem assuntos amenos do dia-a-dia. Me interesso tanto pelo suicida quanto pelo condenado; um contempla a se matar enquanto o outro sabe que vai morrer. No filme temos estes dois momentos, e os dois são muito importantes e marcantes; ambos têm uma ligação com a religião e com o Deus Pai. Antes de se atirar ela olha para o Cristo Redentor e abre os braços como se fosse voltar ao encontro do Pai e ele ofende ao Pai quer o abandonou e não cuidou dele.

O cinema tem essa condição voyerística de você poder ver alguém em situações limites.

  • Você acha sua visão da nossa época pessimista?
  • Acredito numa combinação de sentimentos. Tem aquela esperança idiota de que os dois vão ficar juntos e no final não. Nada mudou, só que a mulher abriu a janela e viu o outro, o lado de fora. É uma mudança muito sutil.

Tenho está esperança sutil, das pequenas mudanças de cada um. Acredito nas mínimas alterações no estado de consciência contra a alienação, que para mim é o pior mal; achar que não está acontecendo nada é uma doença, e achar que todo o outro é um inimigo também é.

Fiquei impressionada com um jornalista carioca que me entrevistou, ele estava se sentindo ofendido porque o Rio que ele viu na tela não era o Rio que ele vive. Acho isso interessante porque este Rio que ele viu é justamente o Rio que ele mora, ele só não quer enxergar isto. Um cara pula um muro na favela e está dentro de um prédio de classe média, mas parece que ele está caindo em outro mundo.

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