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Musica para os olhos

Alice Gomes

O penúltimo filme exibido na Première Brasil do Festival do Rio foi o documentário Um Certo Dorival Caymmi, de Aluisio Didier. Didier é maestro, compositor, produtor musical e diretor de cinema. Um Certo Dorival Caymmi é o seu quinto filme. Antes, dirigiu Brasília, uma sinfonia, de 85, sobre uma sinfonia composta por Vinícius de Moraes e Tom Jobim para a inauguração de Brasília, mas que ficou inédita por vinte e cinco anos; Krajcberg, a Chico Mendes, de 91/92, curta sobre a obra do artista plástico Frans Krajcberg; Nosso Amigo Radamés Gnattali, de 83/91, primeiro filme do projeto Personalidades da Música; e Frans Krajcberg e Egberto Gismonti: Natura, filme que está praticamente pronto mas ainda inédito.

Um Certo Dorival Caymmi parte da visualidade das músicas do cantor e compositor baiano Dorival Caymmi para falar de toda sua obra e sua vida. Uma entrevista com Caymmi, cenas de um filme em que ele atuou e cantou, fotos da família, cenas de sua participação no programa Andy Williams Show da TV NBC, cenas da Bahia, e de seu filho Dori cantando suas músicas sobre o mar formam um painel sobre Dorival Caymmi. A entrevista com Caymmi foi feita ao ar livre com uma bela luz e ele está muito à vontade falando, cantando e tocando.

Como surgiu a idéia de fazer o filme Um Certo Dorival Caymmi e do projeto Personalidades da Música.

Eu sou, em primeiro lugar, músico e tive prazer de, durante minha carreira, trabalhar com pessoas maravilhosas como Dorival Caymmi, Tom Jobim e Radamés Gnattali. Em 85 eu gravei um disco com o Dorival, chamava se Som Imagem e Magia e foi um trabalho lindo que resultou em um disco duplo e em um livro. Nessa época eu já havia começado a fazer o filme do Radamés, que era muito amigo do Tom e do Dorival; três gigantes da música brasileira. O Caymmi e o Tom fizeram participações no filme do Radamés e quando ele ficou pronto o Dorival viu e topou fazer o próximo; o Tom também tinha topado, mas infelizmente não tivemos tempo. O projeto de personalidades da música era basicamente com estes três músicos que eu admiro muito profundamente. Agora não sei qual será o próximo, tenho algumas idéias mas nada que realmente me empolgue como o Tom.

Como você passou de músico para diretor de cinema documentário?

Eu sempre gostei muito de cinema e quando eu tinha dezoito anos pensei seriamente em ser cineasta. Mas minha família tem algo musical muito forte, meu avô italiano era músico de opereta, minha avó era pianista, meu pai toca violão, amadoramente, enfim; a música está no sangue da família. Então a música me falou mais forte e mais cedo.

Mesmo assim nunca perdi minha ligação com o cinema, tenho amigos que fazem cinema e eu sempre que podia estava ajudando com a música do filme e assistindo as filmagens; minha mulher (Regina Martinho da Rocha) também faz cinema, ela é produtora.

A vontade de fazer cinema continuou e eu pensei em fazer estes filmes relacionados a música, que meu universo de entendimento.

Mas o cinema para mim é como um prêmio faço por prazer, não dependo dele para sobreviver. Sobrevivo com a música e meu trabalho relacionado a ela. Minha principal ocupação é meu trabalho com a rede Globo, onde musico programas jornalísticos e esportivos, isto agora porque antes eu trabalhava nas novelas, mini-séries e programas especiais.

Como foi seu primeiro trabalho como diretor?

Meu primeiro filme é de 85 e se chama Brasília, uma sinfonia. Tom e Vinícius fizeram uma sinfonia para a inauguração da cidade de Brasília, mas ela não chegou a ser executada na ocasião e só o foi vinte e cindo anos depois. Foi um curta em 35 mm onde eu fazia um paralelo entre a construção da cidade e a composição da sinfonia, no final cidade e sinfonia ficam prontas juntas, é muito bonito.

Mas em 85 você disse que já estava filmando o filme com o Radamés Gnattali, o Nosso Amigo Radamés Gnattali ....

Este filme foi um processo muito longo; comecei a filmar em 83 e fui até 90 filmando para só em 91 lançá-lo. Durante este tempo acompanhei os concertos do Radamés por onde ele ia. Filmei ele tocando com o Tom, com o Caymmi, com o Pixinguinha, com a orquestra do teatro municipal, e fiz muitas imagens dele.

Só que este ainda não foi meu segundo filme. Durante o tempo que estive filmando conheci o Frans Krajeberg e me impressionei muito com a obra dele e com a personalidade também. Fiz um curta, em 91, com ele e sobre ele, Krajeberg, a Chico Mendes; é só música e imagem, tem apenas uma ou duas frases que são muito trabalhadas. Ficou lindo e ganhou muitos prêmios; em Bilbao, em Havana, no Rio durante a Eco 92, e outros mais.

Tenho um segundo filme com o Krajeberg que já está quase pronto, já foi até editado, só falta finalizar. Este deve ser meu próximo lançamento. É sobre uma exposição das obras do Krajeberg em Curitiba onde o Egberto Gismonti tocou, Frans Krajeberg e Egberto Gismonti: Natura.

Outra paixão que tenho são as artes plásticas. Acho que, metaforicamente falando, tem muita música nas artes plásticas. A pintura moderna e a música são muito abstratas e se encontram neste campo abstrato.

Caymmi também é pintor e faz uns quadros lindos, olha só (mostra livro do disco Som, Imagem e Magia com pinturas feitas por Caymmi). Isto daqui não é coisa de amador não, ele tem estudo, sabe o que está fazendo. Caymmi quase largou a música para se dedicar a pintura, mas se convenceu a tempo de que isto seria uma loucura. A música do Caymmi é muito visual.

Fale um pouco sobre esta visualidade da obra de Caymmi, sobre a frase dele que diz que o primeiro ato ao fazer uma canção é vê-la.

Meu filme partiu desta frase dele: "meu primeiro ato ao fazer uma canção é vê-la. Eu tenho dois olhos especiais que vêem música." Começo o filme com ele falando sobre isto. O Caymmi fala muito bem , ele se expressa muito bem e é muito carismático, o que ajuda muito na hora de filmá-lo. Através desta frase ele explica seu processo de criação; como uma paisagem, ou uma cena, vira música.

Por que o um certo do título Um Certo Dorival Caymmi?

O filme é um painel sobre o Dorival. Como se fosse uma sala só de um museu, não é o museu todo, por isso um certo Dorival Caymmi, porque não é ele todo. Como se fossem aqueles títulos em inglês: something about ....

Como é o filme?

O filme tem uma grande entrevista com o Caymmi; tem iconografia; tem o Dori Caymmi cantando as músicas do pai sobre o mar; tem imagens da Bahia; tem o próprio Dorival cantando e tocando violão durante a entrevista; tem cenas de uma participação dele na TV americana NBC, em 1965, no Andy Williams Show; tem cenas do filme Estrela da Manhã, de 1948, dirigido pelo crítico de cinema Jonald de Oliveira e com roteiro de Jorge Amado; e tem algumas cenas de ficção feitas sobre letras de músicas de Dorival.

Foi um grande prazer poder usar as cenas do filme; os rolos do filme estavam guardados em péssimas condições tivemos que mandar o filme para os Estados Unidos para ser recuperado pelo menos um trecho principal. Caymmi tinha trinta e quatro anos quando fez Estrela da Manhã , ele contracena com Paulo Gracindo, o galã do filme, e com Dulce Bressane. Dorival diz que seu papel era o de galã rústico. Ele também canta no filme e conseguimos recuperar cenas com ele cantando.

E por aí adiante, formando um grande painel da obra deste grande músico.

Depois de já ter feito cinco documentários você não tem vontade de fazer ficção?

Claro que tenho, mas eu amo o documentário, ele tem uma coisa mágica que é a espontaneidade do momento; não pode repetir, se repete nunca é igual antes.

A aproximação do documentário e da ficção também é uma coisa que me fascina muito. Fazer um filme que seja inspirado na realidade, quase tão fiel como um documentário, mas que seja ficção.

Já escrevi um roteiro de ficção, mas sempre tem alguma coisa a ver com a música.

Quero continuar fazendo cinema com música, mas cada dia está mais difícil captar recursos.

Por falar em recursos e captação, qual foi o orçamento do filme?

O orçamento do filme todo.... Não sei direito mas algo em torno dos trezentos mil. Tivemos patrocínio do Banco Real, da TVA, um pouco daqui e dali, um pouco de dinheiro do nosso bolso, ganhamos um prêmio de resgate ao cinema brasileiro com o roteiro do filme e foi indo assim até que ficou pronto.

O filme já tem data de estréia depois da Première Brasil?

Isto é com a Riofillmes, eles tinham falado que ia ser ainda este semestre mas já disseram que só deve ser no começo do ano que vem.

Sei que a carreira cinematográfica de um filme documentário brasileiro no cinema é muito limitada, por isso já estou pensando um formato para o filme ser exibido na televisão. Acredito que, de maneira geral, o documentário seja um formato mais adequado para a televisão.

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