Depois do
fantasioso e elogiado Minha Vida em Cor-de-Rosa, sua estréia na direção, o
cineasta belga Alain Berliner volta a atacar com mais um filme alegórico, O Muro,
episódio da coleção 2000 Visto por... A imagem de uma imensa barreira de
concreto e arame farpado dividindo um país pequeno e aparentemente tranqüilo como a
Bélgica não deixa de surpreender os desavisados. O Muro revela o abismo que
separa as expectativas otimistas em torno do milênio e a visão cética do diretor para a
realidade da histórica divisão nacional entre francófonos, ao sul do país, e
flamandes, ao norte. "A Bélgica nasceu de uma maneira bastante bizarra, um país que
foi formado entre duas ou três tendências.", explica Berliner as razões do
conflito. O filme narra a história de Albert, passada à véspera do reveillon, que se
vê preso na impressão de ser irrisório diante desse imenso muro, que não consegue
atravessar maneira de Berliner mostrar como a imposição de valores e a falta de
liberdade geram "absurdos inacreditáveis na vida cotidiana das pessoas, que são
obrigadas a fazer certas coisas".
Já em Minha Vida em Cor-de-Rosa, seu primeiro filme, havia
uma narrativa féerica, fantasiosa; agora, com O Muro, mesmo sendo um filme com um
tema bastante cotidiano e realista, a abordagem surrealista e fantasiosa é ainda bastante
forte. A imaginação, a invenção de um espaço maior que a realidade, que no caso da
Bélgica, um país pequeno, poderia ser muito limitada, parece muito importante na sua
obra.
Sim, exatamente. Eu acho que uma das características que faz a
Bélgica é que há tão poucas coisas realmente a serem vistas ou a serem vividas que é
preciso então inventar, muito. E também porque eu acho que a imaginação, onde quer que
seja, o meio de escapar do cotidiano. Eu me lembro de um livro de Arthur Coster que em
francês se chama Les Héros et LInfinit, um livro que conta a história de
um sujeito preso pelo regime comunista e que se sente enfraquecido por essa perseguição,
mas ele não se consome completamente porque tem uma coisa que eles não conseguem tirar
dele, que é seu imaginário. E dentro de sua imaginação, ele pode ser livre.
Em geral, os filmes alegóricos e políticos surgem sob regimes
totalitários, tempos de ditadura e falta de liberdade de expressão. É o caso do Cinema
Novo brasileiro pós-64, por exemplo. A Bélgica não sofre desse problema, no entanto, a
sua visão de uma nação partida mostra um imaginário regime totalitarista, que tenta
controlar um homem, o Albert. Para você há uma relação também nisso com o estilo do
filme?
Claro, porque a relação entre as duas comunidades é bastante tensa.
Muitas pessoas se perguntam como nunca houve uma guerra civil entre os flamandes e os
francófonos. A situação está realmente muito tensa. Todos os dias há aberrações,
absurdos inacreditáveis na vida cotidiana das pessoas, que são obrigadas a fazer certas
coisas, ou então não podem fazer outras coisas, porque há essa oposição entre as duas
comunidades. É verdade, então, que é um filme alegórico que nasce sob um clima de
tensão.
O que se percebe ao se ver os filmes da série é que, apesar da
imposição do tema o que pode ser perigoso, pois os filmes poderia se repetir,
cair nos clichês são filmes ao mesmo tempo universais e muito ligados a uma
tradição nacional, local...
Isso fazia parte do projeto, que cada cineasta falasse ao menos um
pouco de seu país. E de qualquer maneira, quando a gente filma no próprio país, com
atores de seu país, não há como não falar do próprio país. Era exatamente isso que
eles queriam, tanto o Canal Arte quanto os produtores de Haut e Court, que cada um se
singularizasse.
O que eu queria dizer é que, por exemplo, o filme africano fala do
retorno de um exilado, o oriental tem uma visão existencialista do mundo... Já o seu
filme tem muito do surrealismo de um Magritte. Não falo só da forma, como também, e
muito, dos temas, vide o seu filme. Você acha essas comparações válidas?
Sim, e eu acho que os filmes refletem mais ainda a personalidade dos
diretores, porque, por exemplo, se fossem os irmãos Dardenne, que ganharam a Palma de
Ouro a Cannes com Rosetta, que tivessem feito o filme, eles o teriam realizado de
uma maneira completamente diferente. E se é verdade que represento meu país, porque eu
sou belga, ao mesmo tempo eu acho que se fosse com um outro diretor nascido na Bélgica,
seria um filme bem diferente. Se fosse um outro cineasta taiwanês, seria completamente
diferente. Se fosse um outro cineasta francês, também. Não se deve esquecer que um
filme é também um diretor... e também um roteirista, um produtor, uma equipe, enfim.
Falando agora um pouco do conteúdo do filme, a divisão cultural, o
"muro" que divide o a Bélgica. A ironia disso tudo é que, nesses tempos da
União Européia e fim das fronteiras para a circulação de pessoas, ainda há uma
incrível fronteira regional no meio da Bélgica...
Sim, há uma ironia, mas a divisão é verdadeira, e há coisas que
nós não podemos mais fazer dentro da Bélgica mas que são possíveis em um plano
europeu, por exemplo, o caso das televisões. No plano europeu, nós não podemos mais
impedir que um canal de televisão de um país da comunidade européia de se instalar e de
transmitir para outro país, é ilegal. Mas na Bélgica o que acontece é que uma
televisão flamande é impedida de fazer emissões para o lado francófono e que uma rede
de televisão francófona não pode se instalar no lado flamande. Quer dizer, há uma
espécie de exceção feita para os belgas por causa da situação lingüística, o que é
inadmissível. É um atentado à liberdade de todos os dias não se poder assistir a tal
televisão porque você está em território flamande ou em território francófono.
O que sem dúvida remete não só ao muro de Berlim mas também às
disputas étnicas na Iugoslávia.
Sim, mas a idéia do muro surgiu porque de tempos em tempos eu me
encontro em uma situação na qual não vejo solução, da impressão de ser mínimo em
relação a um imenso muro meio obscuro, é essa a imagem. No começo eu não pensei muito
no muro de Berlim e tudo isso. Eu pensei muito mais nas pessoas que se sabem controladas
porque não conseguem achar uma solução, elas chegam diante do muro e não sabem como
seguir adiante. Só depois é que a imagem do muro de Berlim veio, a imagem do muro de
Dublin também. Eu fiquei muito chocado com o filme de Jim Sheridan, O Lutador, que
em uma certa cena mostra o muro, que eu nunca tinha visto e pensei: é a mesma coisa, os
mesmos helicópteros, as mesmas luzes de vigilância, o mesmo tipo de concreto, o mesmo
mirante de controle.
Para quem está de fora, como nós brasileiros, surpreende um pouco
ver como é forte a fronteira que divide o mesmo país em dois. É um conflito histórico,
antigo, enraizado. Você poderia falar um pouco dele? Me parece que essa disputa ficou
muito mais forte nos últimos tempos.
É por isso que no começo do filme há o que eu chamo de resenha
histórica, um momento do filme em que há um artifício, uma reportagem, que explica um
pouco a situação, que é bastante complicada. A Bélgica nasceu de uma maneira bastante
bizarra, um país que foi formado entre duas ou três tendências. Há ainda uma terceira
língua que se mistura, a alemã. Os flamandes e os francófonos nunca se puseram em
disputa com os alemães, mas na Bélgica há três línguas nacionais. Há também três
regiões: o território alemão não é muito grande, mas ele não deixa de existir. Dessa
maneira, a Bélgica é um país mínimo no qual convivem três comunidades.
No começo, o flamande era considerado a língua dos camponeses, a
língua do povo, e mesmo em Flandres, a burguesia falava francês. Naquele momento, o
francês era o idioma falado por cinqüenta porcento da população do norte. Vocês
viveram a ditadura aqui, ela funciona durante um prazo, só dá certo durante um tempo,
depois as pessoas se enchem. Eles se dizem: por que nós devemos aceitar isso? E eles
derrubam o regime. Bom, os flamandes nunca derrubaram o regime, mas a partir de 1920, 30,
eles começaram a fazer reivindicações culturais muito importantes. A Segunda Guerra
pareceu amenizar um pouco isso, pois era preciso combater junto. Mas mesmo durante a
guerra os flamandes tinham o sentimento de que se eles se unissem ao alemães poderiam se
livrara para sempre dos francófonos. vários flamandes colaboraram com o regime de Hitler
e isso não é muito bem visto na Bélgica. Após a guerra, as disputas voltaram. Agora os
francófonos dizem que os flamandes são agressivos, mas eles esquecem que durante muito
tempo oprimiram os flamandes. É normal que um dia eles acordem e queiram sua autonomia,
sua identidade.
Politicamente falando o filme é bastante cético. Há, porém, uma
esperança nisso tudo, e ela parece se encontrar muito mais numa vontade do povo, na
tolerância e na compreensão das pessoas, do que no governo.
Sim, mas o problema é que não é o povo que decide, ou seja, as
alianças são feitas de uma maneira tal... você sabe.
Sim, eu li que foi feito recentemente um plebiscito junto aos
flamandes e, para surpresa de muita gente, somente dez porcento deles votaram pela
separação do norte do resto do país.
É a diferença entre o que as pessoas pensam e os políticos pensam. O
problema é que as pessoas escolhem esses políticos, que aplicam seus próprios
programas. É aí que a democracia se torna uma ilusão, ela ainda não é exatamente uma
realidade.
Quais são suas expectativas para solução do problema da barreira
cultural? Você acredita que possa haver uma solução menos sofrida?
Eu acho que há uma solução, mas eu não a tenho. Eu acho que deve
haver uma solução.
Mudando de assunto, o cinema belga, que não tem muita tradição,
atravessa uma ótima fase: depois do Globo de Ouro para melhor filme estrangeiro de Minha
Vida em Cor-de-Rosa, em 97, os irmãos Luc e Jean-Pierre Dardenne ganharam este ano a
Palma de Ouro em Cannes por Rosetta. Eles são, no entanto cineastas ligados a uma
escola realista, bastante diversa da sua, eles começaram a fazer filmes no documentário.
Talvez eu esteja enganado, mas me parece que essa escola mais ligada ao realismo é
bastante forte no cinema de seu país. Como você vê o cinema belga atual e como você
acha que se situa nele?
Bom, Jaco van Dormael é um pouco também de realismo mágico. Eu acho
que isso muda muito, como os países e os povos mudam e evoluem. É difícil colocar todo
o cinema belga em um rótulo, porque não se trata de jeito nenhum de uma indústria,
nunca vai ser. Ë na verdade um cinema de indivíduos, de individualidades, cada novo
cineasta tem uma vivência diferente. Lucas Delvaux faz realismo mágico. Henri Stork filma
as grandes greves, é o documentário social, um estilo parecido com o dos Dardenne. Eu
estou mais para o lado de van Dornael, de Delvaux, mas isso não quer dizer que um dia
não possa fazer um filme bastante "social". E isso não quer dizer que os
Dardenne não possam realizar um filme de realismo mágico. Quer dizer também que não
há amarras, que pode aparecer manhã alguém novo e fazer algo completamente diferente.
Por que não? É verdadeiramente um cinema de individualidades, e eu acho que nós devemos
a todo custo tentar preservá-lo assim.
Você acabou de rodar um filme nos Estados Unidos, Passion of
Mind, com Demi Moore. Como foi a experiência de trabalhar com bastante dinheiro, com
uma estrela de Hollywood?
Dinheiro nunca é suficiente quando se faz filmes... (risos) Mesmo nos
filmes de 200 milhões de dólares, para eles o dinheiro nunca é suficiente.
Foi o que aconteceu com Titanic.
É verdade. Passion of Mind foi mais caro do que os outros
filmes que eu fiz, principalmente do que O Muro, que foi feiro com quase nada. E no
entanto, se nós fizermos a comparação com um filme americano tradicional, foi um
orçamento bastante bastante razoável. Ë muito mais um filme independente. Mas ainda
assim havia um estúdio por trás, o Paramount, então posso dizer que eu aprendi a
trabalhar com um estúdio. É verdade que os americanos realizam seus filmes de maneira um
pouco diferente em relação à Europa, as relações entre as pessoas são diferentes, o
que é preciso aprender. Sobretudo na pós-produção, que é muito desigual de tudo que
eu conhecia. Eu tinha o hábito de editar o som com minha montadora e lá havia um
departamento inteiro para isso, com quinze pessoas. Mas, grosso modo, o trabalho da
câmera, em torno da câmera, é a mesma coisa. Que seja com três francos ou com 300
milhões de dólares, há sempre um diretor, um cinegrafista, os atores...
E você poderia nos adiantar alguma coisa do filme?
Ainda falta um pouco de tempo para eu falar dele... (risos) Bom, é uma história de
sonho e realidade, tomada de maneira bem realista. É a história de uma mulher que vive
duas vidas, uma real e a outra não. Ela não sabe mais qual vida é real e qual é
sonhada, e ela não tem muita vontade de fazer uma escolha.