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Andrei Tarkovsky
 

Quando instado a explicar o sentido de seus filmes, Andrei Tarkovski (1932-1986) respondia com a seguinte metáfora: "Você olha um relógio. Ele funciona, mostra as horas. Você tenta compreender como ele funciona e o desmonta. Ele não anda mais. E no entanto essa é a única maneira de compreender..."

Tarkovski passou a vida montando e desmontando "relógios" na tentativa de compreender o funcionamento da vida e do espírito dos homens. Nascido em Moscou, filho do célebre poeta Arseni Tarkovski, Andrei estudou música, pintura e a língua árabe na infância e juventude. Trabalhou em prospecção geológica na Sibéria e só aos 24 anos começou a se interessar por cinema. Aprendeu o novo ofício com Mikhail Romm (Lenin em Outubro) na Escola de Cinema de Moscou, onde realizou o curta Hoje Não Haverá Saída Livre (1959) e o média de conclusão do curso, O Trator e o Violino (1960).

Com o épico introspectivo A Infância de Ivan (1962), Tarkovski fomentou a nouvelle vague soviética dos anos 60. Diante daquela história de guerra vista pelo menino como o inferno na terra, Jean-Paul Sartre a defendeu como peça de "surrealismo socialista". Em seguida veio Andrei Rublev (1966), para muitos sua obra-prima. A biografia poética do pintor de ícones medieval enfatizava a visão do artista não como uma elite, mas como um operário, um artesão gerado pela energia criativa do povo.

A esta altura, Tarkovski já vivia uma situação contraditória na indústria estatal do cinema. Os estúdios Mosfilm concediam-lhe vastos recursos de produção para depois dificultar ao máximo a circulação de seus filmes. Andrei Rublev ficou proibido durante cinco anos por "falta de rigor histórico". A burocracia o acusava de misticismo, violência e irrealismo. A crítica e os festivais internacionais, no entanto, o cultuavam como a um novo Dostoievski. Solaris (1972), cruzamento de ficção científica com ensaio filosófico, consolidou sua reputação dialogando com o 2001 de Kubrick e sugerindo que cada um de nós é responsável por assumir seu passado perante a coletividade.

Era tempo de Tarkovski voltar-se para o seu próprio passado e o de sua mãe em O Espelho (1974), uma complexa odisséia da memória. Em 1979, ao realizar o sublime Stalker, o cineasta confirmava-se independente dentro do mastodôntico cinema soviético: nem um dissidente padrão, nem um servil cumpridor de cânones.

Nostalgia (1983) e O Sacrifício (1986) serão obras do exílio. No mesmo ano em que as autoridades o impedem de ir à França apresentar Stalker, permitem-no viajar à Itália para filmar Nostalgia, canto de amor à pátria escrito com Tonino Guerra. A busca de locações renderia o semidocumentário Tempo de Viagem. As filmagens suecas de O Sacrifício, já marcadas pelo sofrimento do diretor com o câncer que lhe mataria logo depois, foram registradas no belíssimo documentário Dirigido por Tarkovski, de Michal Leszczylowski.

Nove filmes em 26 anos de carreira parecem pouco aos olhos da estatística. Mas a escala grandiosa da obra de Andrei Tarkovski não se mede por números. Em Esculpir o Tempo, seu livro de reflexões sobre arte e cinema, ele comparou o trabalho do diretor ao de um escultor que, "guiado pela visão interior de sua futura obra, elimina tudo o que não faz parte dela". O seu cinema tem essa qualidade essencial das obras perfeitas: o que não está ali é excesso.

A INFÂNCIA DE IVAN
ANDREI RUBLEV
NOSTALGIA
O ESPELHO
O SACRIFÍCIO
SOLARIS
STALKER
TEMPO DE VIAGEM

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