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A Première Brasil do Festival do Rio, se encerrou, na última terça-feira,
depois de sete noites de pré-estreias de filmes nacionais. Foi uma mostra eclética, teve
de tudo um pouco; Reichenbach com Dois Córregos, um filme sensível e delicado;
Coutinho com uma investigação religiosa numa favela carioca, Santo Forte ; João
Batista de Andrade com O Tronco, um romance épico no cerrado de Goiás; teve
tráfico de drogas em Brasília com atriz francesa no elenco principal, O Dia da Caça,
de Alberto Graça; Sérgio Rezende voltou à história do Brasil com Mauá O
Imperador e o Rei; teve o documentário musical Um Certo Dorival Caymmi, de
Aluísio Didier ; e teve ainda um encerramento com um estreante na direção de longas, Oriundi,
de Ricardo Bravo.
Talvez para falar de Oriundi seja mais fácil começar por sua estrela
principal; Anthony Quinn. Não é a qualquer hora que um diretor estreante brasileiro traz
para o país um ator do porte de Quinn lenda viva de Hollywood - para fazer um
filme.
Bravo conta que a idéia de fazer um filme com o ator era antiga. "Em 91
fiz uma viagem ao Chile e, coincidentemente, estava lendo Ardente Paciência, de
Antônio Skármeta, livro que ficaria conhecido alguns anos mais tarde pelo nome de O
Carteiro e o Poeta. Fiquei encantado por aquela estória e procurei o autor para
adquirir os direitos para uma adaptação, ele se entusiasmou e falou para eu conversar
com a agente dele, que me emprestou os direitos por seis meses. Era a época do plano
Collor e o cinema nacional estava quase morto aqui no Brasil, pensei em fazer uma
produção internacional e queria chamar o Anthony Quinn para o papel do Neruda,"
conta o diretor, que conseguiu contatar Quinn, que por sua vez aceitou fazer o papel.
"Mas meu tempo foi passando sem que ninguém investisse no projeto, mesmo tento o
nome de Quinn no elenco. Foi então que Michael Bradford começou a assediar os direitos e
acabou fazendo o sucesso que foi O Carteiro e o Poeta. Pelo menos tudo isso serviu
para me aproximar de Quinn", completa.
Um dia Bravo recebeu um telefonema do amigo músico Arrigo Barnabé dizendo que
um produtor de Curitiba estava procurando um diretor carioca para fazer um filme sobre
migração italiana no sul do Brasil. Arrigo deu o nome de Bravo para o produtor Rubens
Genaro, que mandou um roteiro para Bravo estudar. "O roteiro que chegou as minhas
mãos era de um documentário e eu queria fazer ficção. Então o Genaro perguntou porque
eu não pegava a história e fazia uma estória de ficção original. Eu estava a muito
tempo sem filmar e li muito sobre a estrutura cinematográfica ficcional durante este
tempo, também escrevi muito, e quando ele propôs para eu escrever o roteiro eu topei e
chamei o Marcos Bernstein para me ajudar," e assim começou a nascer Oriundi.
"O Genaro tinha um prazo para começar a filmar, se não ele perdia todo o
dinheiro que já tinha investido, e este prazo era exatamente de um ano, desde a data que
tivemos nossa primeira conversa em junho de 98. Em agosto eu escrevi a história; em
setembro eu a mandei para o Bernstein, que em outubro me mandou a primeira versão do
roteiro; no mesmo mês eu mandei o roteiro para o Quinn, que aceitou fazer o papel; em
janeiro iniciamos a preparação da produção; em março entramos em produção; em abril
já estávamos fechando com o elenco; e em maio começamos a filmar. Foi uma gestação
muito rápida", explica Bravo orgulhoso.
Quinn chegou ao Brasil três semanas antes de começar as filmagens para poder
conhecer os atores e discutir o roteiro. "Ele mexeu muito no roteiro, tudo que dizia
respeito ao personagem dele foi modificado. Ele me deu muitos conselhos. Ele dizia: eu já
fiz mais de cem filmes e este é o seu primeiro, me escute e aprenda. Ele sabe de tudo.
Às vezes ele falava para eu não filmar tal cena porque iria enfraquecer determinada
personagem e que eu estaria perdendo tempo e dinheiro filmando; eu mesmo assim filmava e
na hora da montagem as cenas realmente caíram. Foi uma grande escola para mim."
O resultado das alterações de Quinn são notáveis; seu personagem é
realmente o mais bem resolvido e sua atuação quase chega a ser destoante de tão
superior. Estão no elenco ainda Letícia Spiller, Paulo Betti, Paulo Autran, Gabriela
Duarte e Tiago Real, ganhador do Prêmio Festival do Rio de melhor ator de curta-metragem
por seu trabalho em O Oitavo Selo.
Depois de todo o trabalho com Bravo, Quinn chamou o diretor para filmar um
roteiro que ele queria fazer há trinta e cinco anos. "A história do roteiro é
fantástica; uma estória de Jorge Amado que Quinn se interessou e chamou uma roteirista
para adaptá-la, na época o cara (o roteirista) era uma desconhecido mas dez anos depois
estourou, prefiro não contar nomes e dar detalhes porque estamos fechando as primeiras
negociações", conta, misterioso.
Por enquanto Bravo ainda tem que trabalhar com Oriundi, ele tem uma
engenhosa estratégia de marketing para o lançamento e planos para o futuro do filme.
Primeiro ele vai laçar o filme ainda em outubro em Curitiba, só para poder preencher um
pré-requisito e poder se candidatar ao Oscar. "Produtores internacionais que viram o
filme disseram que Quinn está em sua melhor performance dos últimos vinte anos e que ele
podia ganhar o Globo de Ouro e abrir os alhos da Academia. Não vou lançar o filme
nacionalmente agora porque não será uma boa fase; muitos filmes nacionais estão prestes
a entrar em cartaz e não temos espaço para todos. Devo lançar Oriundi só no
começo do ano que vem e já tenho uma estratégia montada: na época do lançamento a
revista Caras vai publicar fotos do filme e distribuir a trilha sonora junto aos
exemplares da revista." Outra coisa que, por pura coincidência, pode ajudar na
popularização do filme é o tema, que já vai estar quente na cabeça do povo por causa
da novela das oito.
Sem estratégia nenhuma o filme fez sucesso em sua primeira exibição pública,
no Festival de Vancouver. "A recepção do público não poderia ter sido melhor;
aplaudiram muito e ainda ficaram meia hora na sala, após o término da exibição, para
me fazer perguntas. Fiquei muito lisonjeado pois é uma platéia de cinéfilos sem
qualquer compromisso comigo. Aqui no Rio é diferente; foi bem aceito pela platéia mas
isto não diz muito porque nela estava toda minha família, meus amigos e, até, meus
inimigos."

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Anthony Quinn

Ricardo Bravo
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