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O diretor Oswaldo Caldeira, de O grande Mentecapto, O Bom Burguês
e Passe Livre, como todo bom mineiro sempre foi apaixonado por Ouro Preto e sua
história; e é claro por seu herói maior, Tiradentes. Em Abril de 1989, Caldeira leu nos
jornais que a doutora Isolde Brans havia tornado público documentos provando que
Tiradentes tinha se encontrado com Thomas Jefferson na Europa. "Isto me deixou
surpreso porque era uma informação completamente nova sobre um grande herói brasileiro
e que ainda gerava muitas dúvidas e polêmicas. Vi como ele era pouco conhecido e quis me
aprofundar mais no assunto. Comecei logo pelo desafio maior , que era ler os
dez volumes dos Autos da devassa da Inconfidência Mineira, basicamente a
transcrição dos depoimentos colhidos nas investigações sobre a conjuração, acrescida
de outros documentos ", conta o cineasta.
Caldeira se preparou para ler um documento jurídico formal e maçante, mas
revela que foi surpreendido por uma fascinante leitura sobre a sociedade mineira do
século XVIII com todas as suas banalidades cotidianas pormenorizadas. "Bordados,
jogos de gamão, intrigas matrimoniais, chuvas repentinas, docinhos e queijinhos,... Tudo
isso me seduziu de tal forma, que encontrei ali não só o formato para o encaminhamento
das minha tese de doutorado como também de um roteiro para um filme de
longa-metragem."
A tese A imagem de Tiradentes em busca do rosto perdido
foi defendida na Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1994 e tenta provar que não
existe uma representação de Joaquim José da Silva Xavier feita durante sua vida (1746
1792) e que todas as épocas da história brasileira o retrataram como bem
entenderam. "Tiradentes não tem cara e ao mesmo tempo tem milhares delas. A mais
consagrada foi a da campanha republicana, que era a de um Tiradentes divinizado, um
mártir sofrido, inspirado em Cristo", analisa o diretor.
Doutor em imagens de Tiradentes, Caldeira quis tornar pública a sua própria
figura para o herói-mito. "Com o filme eu queria romper com esta imagem
cristianizada e trazer um Tiradentes mais humano, viril, sedutor e lutador. Mostrar que
ele foi realmente um grande homem, sábio e antenado com seu tempo, mas que também tinha
suas fraquezas e ingenuidades. Ele freqüentava tabernas e bordeis, e não só se deitava
com as prostitutas como também lhes fazia promessas. Assim como Tiradentes todos os
outros inconfidentes tiveram suas fraquezas humanas e eu também quis retrata-los desta
maneira desmitificada." Apesar da detalhada pesquisa histórica Caldeira também
criou ficção em cima dos fatos tomando certas liberdades históricas e procurando sempre
contar tudo de um jeito que pelo menos poderia ter acontecido de verdade.
Para tornar sua representação histórica mais próxima da realidade
contemporânea Caldeira usou artifícios que podem parecer estranhos. "Antigamente as
heroínas e musas estavam relacionadas a pureza e a virgindade. A Marília de Dirceu, por
exemplo, entrou para a história como uma figura imaculada. Hoje em dia estes valores já
não são tão importantes e é por isso que no filme eu mostro um lado carnal dos homens
e das mulheres, não deixam de ser maravilhosas por causa disso. Outra coisa que fiz que
deixou muita gente chocada foi usar a música Blowing in the wind, do Bob Dylan. O que eu
quis dizer com isto é bem claro, os ideais da Inconfidência Mineira (1789) estavam
espalhados pelo mundo e foram os mesmos da Revolução Francesa e da Americana,"
justifica Caldeira.
Oswaldo Caldeira também é professor de cinema na Escola de Comunicação da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO / UFRJ), onde coordena o NUCINE Núcleo
de Cinema. Em outubro de 1995 Caldeira criou uma matéria eletiva sobre "O Cinema e o
Mundo Contemporâneo" onde os alunos tiveram aulas teóricas sobre o tema e depois
passaram para a parte prática, que foi um Filme-Laboratório. Cerca de trinta
alunos passaram pelas filmagens de Tiradentes, trabalhando diretamente na
realização do filme. Alguns fizeram de tudo como assistentes e outros se especializaram
em suas áreas preferidas. Por exemplo, todas as fotos de divulgação do filme foram
tiradas por alunos da ECO.
O filme ainda rendeu uma revista e um livro. A revista "Tiradentes
um filme de Oswaldo Caldeira" tem por finalidade básica mostrar a experiência do
filme-laboratório com as fotos das filmagens e textos de reflexão. O Livro é o roteiro
original do filme comentado seqüência por seqüência e com indicações de fontes de
pesquisa.
O diretor ressalta que esta é só a sua representação de um herói
nacional, é o seu Tiradentes, e não pretende ser visto como o verdadeiro
ou definitivo. Espero que de alguma maneira este possa ser lembrado
como o Tiradentes da nossa época, agora quanto tempo ele vai durar eu
não sei", conclui.
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