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André Barcinski

Pretty as a Picture é um bom documentário sobre David Lynch, um dos poucos cineastas americanos que ainda se digna a fazer cinema autoral. Rodado em vídeo durante as filmagens do mais recente filme de Lynch, Lost Highway, o documentário traz entrevistas com o diretor e com vários de seus colaboradores, e consegue traçar um perfil abrangente - porém um pouco superficial - sobre Lynch.

As seqüências mais interessantes são as que mostram o cineasta em pleno processo de criação: no set de filmagens, orientando atores como Robert Loggia e Bill Pulmann, ou no estúdio de gravação, supervisionando a trilha sonora com o compositor Angelo Badalamenti. Lynch é mostrado como um artista altamente intuitivo, que acredita em improviso e experimentação. É também um trabalhador incansável e um diretor que gosta de ter controle sobre todos os aspectos de seu filme. É curioso vê-lo experimentando complexas técnicas de microfonagem - que incluem posicionar os microfones dentro de tubos de bambu - para obter um som específico.

Algumas facetas pouco conhecidas da carreira de Lynch são mostradas, como sua pintura e fotografias, que carregam o mesmo tom noir-erótico de muitos de seus filmes. Ele aparece também curtindo um de seus hobbies prediletos, a carpintaria, e trabalhando em seus quadros, misturas de pintura e colagem nos quais Lynch utiliza até mesmo carcaças de animais.

As entrevistas com atores (Bill Pulmann, Patricia Arquette, Robert Loggia, Dean Stockwell e Robert Blake) não fogem muito do tradicional tom elegiático de documentários recentes. As seqüências mais reveladoras são mesmo as que mostram Lynch trabalhando. Especialmente interessante é um trecho no qual o diretor e a equipe do cultuado Eraserhead voltam à casa onde o filme foi rodado, e recordam histórias curiosas sobre a filmagem (estas seqüências foram filmadas poucos meses antes da morte de Jack Nance, ator principal de Eraserhead).

Pretty as a Picture peca, no entanto, por não buscar a inspiração por trás da imaginação bizarra de David Lynch. O que o levou a ser tão mórbido e - no bom sentido - tão "esquisito"? É um diretor pouco convencional, que merecia uma cinebiografia um pouco menos convencional.

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"Pretty As A Picture"