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Clássico redescoberto

Juliano Tosi

Vinícius de Morais, que para os que não sabem começou como crítico de cinema, preparou certa vez uma genealogia do cinema brasileiro de seu tempo: um desenho com uma árvore da qual saiam vários galhos, um quadro que no entanto só seria completado por um pássaro que por cima de tudo alçava vôo, um pequeno e solitário pássaro chamado Mário Peixoto – figura de linguagem que reflete com fineza e precisão não só o acontecimento estético à parte que foi Limite, único e lendário filme de Mário, como também a obsessão incessante do diretor em escapar às limitações universais do homem.

Como não fosse suficiente o caráter de exceção inerente ao vanguardista e difícil Limite, filme sem qualquer parentesco ou relação com nenhum outro realizado antes ou depois no Brasil, a personalidade complexa e evasiva de seu autor só fez contribuir ainda mais para sustentar o mito de obra perdida criado em torno dele. Já nos anos 50 – época em que se iniciava por aqui um pensamento histórico sobre o cinema nacional – o filme se tornara uma raridade. O interesse por Limite era crescente entre os pesquisadores, no entanto, o fugidio Mário Peixoto sempre respondia com seguidas recusas a todas tentativas de se fazer uma contratipagem da única e mutilada cópia positiva existente. Durante muito tempo, umas boas três décadas, Limite foi o melhor exemplo na cinematografia nacional de filme muito comentado e pouco visto.

Se hoje o filme pertence à realidade do cinema brasileiro e não à memória de raros e privilegiados espectadores isso se deve ao trabalho incansável de Plínio Süssekind Rocha e Saulo Pereira de Mello, responsáveis pelo restauração feita meio que a contragosto de Mário. Só em 1978, depois de um processo de recomposição fotograma por fotograma que levou vinte anos, que Limite teve uma nova exibição pública, desta vez no Auditório da Funarte.

Desde a restauração, a curiosidade em torno do filme nunca foi tão grande quanto nos últimos anos. Depois da fundamental criação do Arquivo Mário Peixoto e da publicação inédita – mas infelizmente em tiragem limitadíssima – das poesias de Mundéu e do romance O Inútil de Cada Um, feita pela editora Sette Letras, estão sendo anunciados mais alguns bons motivos para se voltar a redescobrir a obra do cineasta singular que foi Mário. Saulo Pereira de Mello, sempre ele, está dando os retoques finais a sua pesquisa que vai culminar com nada menos que oito livros dedicados a Mário Peixoto, volumes que irão incluir o falso e célebre artigo de Eisenstein sobre Limite que ele forjou para calar os céticos, três ensaios inéditos sobre cinema e os diários que ele manteve em sua estadia de estudante na Europa, durante os anos 20, temporada que marcou decisivamente sua formação estética.

Ao mesmo tempo dois longas-metragens estão sendo produzidos: um documentário sobre sua vida, Onde a Terra Acaba (nome tirado de um filme que Mário não conseguiu terminar), que inclui ainda um making of de Limite, realizado por Sérgio Machado; e, dirigido por Joel Pizzini (o mesmo do premiado curta Enigma de Um Dia), o ficcional Invenção de Limite, que reconstitui a gênese e as filmagens do filme.

Dentro desse esforço coletivo de recuperação da memória do capítulo único no cinema brasileiro que é Limite, foi lançado recentemente o Cd-Rom "Estudos sobre Limite de Mário Peixoto", segundo projeto desenvolvido pelo Laboratório de Investigação Audiovisual da UFF – o primeiro é a "Unidade Referencial Nelson Pereira dos Santos". Uma vez que o objetivo declarado da pesquisa está mais para o didatismo, quem deve melhor aproveitar o Cd-Rom são os não-iniciados, aqueles que estão tendo um primeiro contato com a obra do diretor: está tudo muito bem contextualizado e os personagens (Adhemar Gonzaga, Edgar Brasil, Carmem Santos...) que freqüentavam a vida de Mário são todos devidamente apresentados.

"Estudos sobre Limite de Mário Peixoto" não chega no entanto a ser óbvio em seus textos, aparecendo aqui e ali uma novidade ou análise mais detalhada (no item Descrição foi preparado uma completa lista plano a plano do filme), nem se detém unicamente no registro do filme. No link para Onde a Terra Acaba, por exemplo, pode-se encontrar um raro trecho desse filme inacabado, o primeiro dos fracassos artísticos de Mário. Há que se destacar também o trabalho de pesquisa iconográfica, as fotos são muitas e em geral de ótima qualidade. Fechando esse ótimo trabalho de pesquisa, vale a menção às seqüências do filme que podem ser vistas com o acompanhamento da trilha sonora original (seleção feita pelo próprio Mário que vai do lirismo de Debussy ao moderno Stravinski), pois a cópia em película que tem sido exibida no circuito nos últimos anos é completamente muda.

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Capa do CD-ROM Estudos sobre Limite de Mário Peixoto

 

 

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Limite