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Gênio detalhista

Sem pompa ou circunstância, a melhor homenagem que os cinéfilos podem fazer a Stanley Kubrick, morto aos 71 anos, no dia 7 de março, de causas naturais, é discreta, como foi o próprio diretor em mais de quatro décadas dedicadas ao cinema. Basta correr às locadoras e assistir aos seus seis filmes disponíveis em vídeo no Brasil: "Spartacus", "Dr. Fantástico", "2001, uma Odisséia no Espaço", "A Laranja Mecânica", "O Iluminado" e "Nascido para Matar". No mais. é esperar por "Eyes Wide Shut", que traz Tom Cruise e Nicole Kidman como um casal de psicólogos que se trai mutuamente com seus próprios pacientes. O filme, o último da careira de Kubrick, tem o lançamento previsto nos Estados Unidos para 16 de julho.

Avesso à publicidade, Kubrick não foi exatamente um cineasta prolífico, mas o seu legado de treze longa-metragens constitui um valioso tesouro para a cinematografia mundial. O exaustivo planejamento de seus filmes, que compreendiam extensas etapas de pré-produção, filmagem e pós-produção, foi fundamental para a criação do mito de obsessivo e perfeccionista que sempre o perseguiu. Metódico e detalhista, Kubrick imprimiu em sua obra a marca da genialidade e da busca pela perfeição, muitas vezes acumulando as funções de roteirista, câmera e editor em seu processo criativo.

"Spartacus" (1960) é o seu quinto filme e o primeiro a contar com um orçamento milionário: U$ 10 milhões. Na verdade, Kubrick foi convidado por Kirk Douglas, estrela e produtor executivo do filme, a substituir Anthony Mann na direção da saga de um escravo rebelado na Itália pré-cristã. Sem saber que não teria efetivo controle artístico sobre a adaptação para as telas do livro de Howard Fast, o diretor assinou um contrato com a Byrna Productions e depois se viu preso a um argumento que considerava absurdo e moralista em diversos aspectos, sem poder modificá-lo. O épico, com proporções gigantescas de uma superprodução, ganhou em 1961 o Oscar de melhor figurino e direção de arte, além de melhor ator coadjuvante para Peter Ustinov.

"Dr. Fantástico" ("Dr. Strangelove or How I learned to Stop Worrying and Love the Bomb", 1964), baseado no livro "Red Alert", de Peter George, marca a incursão inicial de Kubrick no terreno da comédia. Com um sofisticado humor negro, o filme ironiza as negociações dipomáticas entre as duas maiores potências do planeta no auge da Guerra Fria, quando um confuso general americano ordena um ataque à União Soviética. Em 1961 Kubrick foi indicado ao Oscar de melhor diretor, assim como "Dr. Fantástico" ao de melhor filme, e Peter Sellers, que interpreta com exímia competência três papéis diferentes, concorreu ao prêmio da Academia de melhor ator.

Em 1968, "2001, uma Odisséia no Espaço" ("2001, a Space Odyssey"), revoluciona o espaço da ficção científica no cinema. Minucioso, Kubrick levou três meses só para elaborar o argumento em parceria com o escritor Arthur Clarke, que mais tarde viria a publicar o resultado em livro. A viagem sensorial e de grande textura plástica de um grupo de astronautas, que investiga um misterioso monolito encontrado em solo lunar, levou em 1969 o Oscar de melhores efeitos especiais. Sobre a complexidade subjetiva do filme, disse Clarke: "Se alguém entender '2001' completamente, nós falhamos. Nós quisemos levantar mais questões do que responder". A história, fundamentada em uma trilha sonora inteiramente composta a partir de repertórios clássicos, também discute o futuro da relação entre a humanidade e a tecnologia por meio do computador HAL 9000, um dos personagens mais instigantes da história do cinema. É curioso observar que a sigla HAL, acrescida em uma letra, forma IBM, fato que Clarke sempre afirmou não passar de mera coincidência.

Três anos depois, "A Laranja Mecânica" ("A Clockworw Orange", 1971), adaptado de um romance de Anthony Burgess, foi lançado em meio a fortes polêmicas. Recheado de seqüências de sexo e violência, contextualmente montadas em um estudo cinematográfico sobre liberdade e punição, o filme só foi liberado no Brasil em 1978, mesmo assim com bolas pretas nos momentos de nu frontal. Algumas cenas foram refeitas várias vezes, reforçando o caráter mítico da obsessão kubrickiana. Um exemplo é a tentativa de suicídio de Alex (Malcom Mc Dowell), em que foram jogadas pela janela seis câmeras blindadas a fim de se obter perfeitamente um enfoque subjetivo da ação. "A Laranja Mecânica" foi indicado ao Oscar de 1972 para melhor diretor, filme, edição e roteiro adaptado.

Depois de quatro anos de pré-produção, Kubrick e sua equipe se isolaram em um estúdio da Inglaterra para filmar "O Iluminado" ("The Shinning", 1980), adpatação do livro de Stephen King, com Jack Nicholson no papel do perturbado escritor Jack Torrance. Kubrick rejeitou o roteiro de King, criando ele mesmo, com a ajuda de Diane Johnson, sua própria versão para o seu primeiro filme de terror, enriquecido em elementos psicológicos. O resultado foi um relativo fracasso comercial e manteve Kubrick afastado do cinema por sete anos.

"Nascido para Matar" ("Full Metal Jacket", 1987), baseado no livro "The Short Timers", do ex-fuzileiro Gustav Hasford, é considerado por muitos o melhor filme já feito sobre a guerra do Vietnã, ao lado de "Apocalipse Now", de Francis Ford Coppola. Rodado nas proximidades de uma usina de gás perto de Londres, o filme retrata o árduo treinamento militar dos recrutas e seu posterior envio à guerra e traz Matthew Modine como o soldado Joker. "Nascido para Matar" foi indicado em 1988 ao Oscar de melhor roteiro adaptado.

Os outros filmes de Stanley Kubrick são: "Fear and Desire" (1953), "A Morte Passou Perto" ("Killer's Kiss", 1955), "O Grande Golpe" ("The Killing", 1956), "Glória Feita de Sangue" ("Paths of Glory", 1957), "Lolita" (1962) e "Barry Lyndon" (1975), além dos curta-metragens "Day of the Fight" (1951), "Flying Padre" (1951) e "The Seafarers" (1953). Para quem quiser conhecer a sua biografia e mais detalhes de sua obra, vale a pena visitar os sites www.kubrick.com e www.idmb.com, que revelam curiosos erros de continuidade e fornecem ricas informações sobre os seus filmes e sua vida. Mesmo sem nunca ter recebido o Oscar de melhor diretor, apesar de indicado várias vezes, Kubrick já foi mais do que laureado nos corações dos cinéfilos amantes de sua arte.

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Cartaz de Dr. Fantástico.

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Kubrick filma Dr. Fantástico.

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Cartaz de A Laranja Mecânica.

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2001, uma Odisséia no Espaço.

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Kubrick filma 2001

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Kubrick e Sue Lyon: Lolita.

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Nascido para Matar.