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André Barcinski

Fast, Cheap and Out of Control (em tradução literal, Rápido, Barato e Fora de Controle) é um filme inclassificável. Também, não se poderia esperar mais nada de Errol Morris, um dos mais idiossincráticos — e possivelmente o mais interessante — cineasta americano da atualidade.

Quem já viu qualquer um dos cinco documentários de Morris, seja Gates of Heaven (sobre um cemitério de animais) ou The Thin Blue Line, história impressionante de um homem injustamente condenado à morte pelo assassinato de um policial (o filme causou a reabertura do processo e a conseqüente libertação do detento), sabe que assistir a um filme de Morris significa apaixonar-se instantaneamente por seu trabalho. Que o diga o diretor alemão Werner Herzog que, para incentivar o amigo Morris a completar Gates of Heaven, prometeu que comeria um sapato caso o filme fosse terminado. Na estréia, Herzog cumpriu a promessa, como pode ser conferido no curta de Les Blank, Werner Herzog Come um Sapato.

O novo filme de Morris, Fast, Cheap and Out of Control, é fascinante. O diretor documenta o dia-a-dia de quatro homens que dedicaram suas vidas a profissões que muitos considerariam risíveis ou supérfluas: um domador de leões, um cientista que constrói robôs, um jardineiro que esculpe animais em arbustos e um biólogo especializado em ratos até há pouco tempo desconhecidos, que vivem enterrados no chão e se organizam de forma semelhante a formigas.

Os quatro falam sobre seus trabalhos com a paixão de fanáticos. Mas essa paixão não é o único traço comum entre eles. Pouco a pouco, o elo de ligação entre as quatro histórias fica evidente: são todos homens que, de uma forma ou outra, usam seus talentos para domar o imponderável e controlar o instintivo. Enquanto o domador se esforça para entender a psique de leões e tigres ("Você tem de controlá-los mentalmente") e o biólogo tenta achar padrões de comportamento nos desconhecidos ratos, o jardineiro luta para evitar que a natureza (chuva, ventos) destruam suas criações. Até mesmo o criador de robôs busca o imponderável, uma vez que seu sonho é criar robôs que tenham "alma". Ele fala, com olhos brilhando, do dia em que os humanos seremos substituídos por andróides.

Morris demonstra um carinho comovente por seus personagens e um enorme respeito por suas profissões. Cada um deles vive em seu pequeno mundo e têm ambições que certamente não interessariam a outros mortais. Mas, para o diretor, interessa justamente esse delocamento dos personagens em relação ao "mundo normal". A fotografia — uma mistura de estilos e formatos, de vídeo a 35mm, passando por câmeras infravermelhas e Super-8, a cargo do excepcional e experimental Robert Richardson (JFK, Assassinos por Natureza, Casino) — colabora com a estranheza.

Fast, Cheap and Out of Control não é um filme fácil. Muitos podem julgá-lo tedioso e se perguntar por que estão gastando 80 minutos de suas vidas aprendendo sobre vidas "inúteis". A pergunta é: inútil para quem?

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