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A difícil parceria entre o cinema n acional e a televisão foi o tema do primeiro dos três debates que integram a seção "Premiere Brasil". O diretor Cláudio MacDowell, os produtores Mariza Leão e Gustavo Dahl e o jornalista Nelson Hoineff, mediados por Alberto Schatovsky, discutiram por cerca de uma hora e meia as relações pouco democráticas do cinema e das produções independentes com a televisão aberta e por assinatura.

Os discursos dos quatro debatedores foram marcados pela insatisfação com o controle do mercado audiovisual exercido pelas emissoras de TV e pela vontade de tentar mudar esse quadro. "A situação da indústria cinematográfica é grave e por isso devemos esquentar as idéias em pauta" , disse Alberto na abertura do debate, depois de ler um texto crítico de Vera Zaveruscha.

O primeiro a falar foi Gustavo Dahl, que traçou uma estatística nada otimista para os setores ligados ao cinema: "Há 20 anos a influência da TV era muito menor. Hoje ela representa 52% do faturamento audiovisual no Brasil, enquanto as salas de exibição ficam com 7%. Do total, os filmes brasileiros garantem apenas cerca de 0,5%". O produtor salientou o espaço reduzido que esses filmes encontram nas programações de TV: "O Canal Brasil é um passo importante mas ainda é pouco para o nosso cinema. Para entrar na TV aberta, o filme nacional esbarra na questão de mercado e de honra, como se a pergunta fosse o quanto ele merece dessa metade de pizza que é a TV brasileira, qual a fatiazinha que lhe cabe".

Restrito à área de televisão, Nelson Hoineff contou como passou de diretor à também produtor independente do jornalístico "Documento Especial". "A produção independente não é bem-vinda na TV aberta. Quem está lá dentro costuma achar que produções de fora da emissora invadem seu espaço. Eu mesmo já testemunhei coisas que me deixaram horrorizados", revelou Nelson, que trabalhou 11 anos na Rede Manchete e atualmente exibe seu "Documento" pela Bandeirantes. O jornalista criticou duramente a programação da TV a cabo no Brasil que, segundo ele, em geral apenas reproduz o modelo da TV convencional: "O nível de especialização do modelo por assinatura em outros países é enorme. Há canais sobre todos os assuntos e para todos os públicos. Isso é bom porque a sociedade é pluralista e cada vez menos se interessa pela massificação".

O tom geral de pessimismo foi brevemente interrompido por Mariza Leão, que deu o exemplo de "Canudos" como possibilidade de uma parceria frutífera entre televisão e cinema. Ex-presidente da RioFilme, ela lembrou a exibição do longa na Rede Globo em formato de minissérie. "Foi um escândalo que um filme recém-lançado nas telas já passasse na TV. Foi uma experiência pioneira, ainda que um fator de exceção, ocasional", afirmou a produtora, que defendeu a existência de uma legislação em favor do cinema brasileiro: "Na França, as emissoras não podem exibir nenhuma dramaturgia de ficção às quartas à noite, sextas e sábados, forçando quem quer ver algo assim a ir ao cinema. Lá se tem uma compreensão absoluta de que um mercado interfere no outro e eventualmente até o anula".

A parceria com a TV também beneficiou Cláudio Mac Dowell, que ganhou um prêmio de U$ 200 mil do canal HBO, podendo concluir seu filme "O Toque do Oboé", em cartaz na MostraRio. "O cinema brasileiro nunca conseguiu estabelecer um desenvolvimento auto-sustentável", assinalou o diretor. Ele se mostrou favorável a procurar canais a cabo estrangeiros como um meio de o cinema nacional obter recursos: " Esse é um dos caminhos, já que a TV por assinatura lá de fora não têm como preencher sua grade de programação e, aqui, ela alega não ter capacidade financeira para arcar com co-produções".

"Eu só acredito na parceria com a TV através deco-produção" , defendeu Vera Zaveruscha quando o debate foi aberto ao público. "Isso seria possível", continuou, "destinando parte do faturamento das emissoras para a co-produção de filmes nacionais, o que ocorre em alguns países, como a Argentina". Ao encerrar o debate, Alberto Schatovsky empunhou a bandeira em defesa da Sétima Arte: "O cinema nacional não pode calar a sua voz e a sua imagem".

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