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O longo fôlego do curta

Juliano Tosi

Surgido durante a crise da produção nacional de longas ocorrida na última virada de década, época que ficou marcada pelo fechamento da Embrafilme, o Festival Internacional de Curtas-Metragens São Paulo chega a seu décimo aniversário ainda ousando acreditar nos filmes de pequena duração como sopro de reinvenção estética e renovação de conteúdos. Observatório privilegiado da nova produção nacional e estrangeira que sempre foi, o festival – que será realizado de 19 a 28 de agosto em oito salas da capital paulista, com direito a uma breve esticada ao Rio de Janeiro – pretende ir mais longe nessa edição comemorativa, realizando em torno do curta-metragem um pequeno panorama histórico de filmes – que começa por algumas raridades do passado, passa pela avaliação da produção atual e abre ainda possíveis caminhos para o futuro.

Além das seções tradicionais, o evento este ano prevê uma pequena retrospectiva com os filmes mais significativos s já exibidos no evento, programas especiais dedicados a Orson Welles, o animador norte-americano Bill Plympton, o experimentador alemão Jochen Kuhn e ao novo e inventivo cinema coreano. Por fim, há ainda o pequeno ciclo itinerante do D.FILM Digital Film Festival, composto por filmes interativos realizados com tecnologia digital.

Com tantos ciclos e seções comemorativas, na edição 99 o festival terá o número recorde de 372 filmes, vindos de 52 diferentes países. Entre os convidados estão ainda curtas premiados no Festival de Berlim – Sobremesa, do escocês Jeff Stark, Urso de Prata na categoria – e dois vencedores do Oscar 99 – a animação Bunny, do americano Chris Wedge, e o ficcional Noite de Eleição, fita de Anders Thomas Jensen, da Dinamarca. E de Clermont-Ferrand vem Palavras Mágicas, dirigido por Jean-Marc Vallée, eleito melhor filme no festival francês.

 Panorama Brasil

O Panorama Brasil, principal programa do evento, vai reunir este ano 66 títulos – selecionados entre os 108 curtas inscritos, para os organizadores do festival a mais fértil safra de curtas da década. Mais uma vez a seção se firma como grande vitrine da jovem produção do cinema nacional – com a edição 99 serão mais de 600 títulos brasileiros exibidos nos dez anos do festival.

Alguns dos destaques do Panorama são E No Meio Passa Um Trem, fita dirigida por Fernando Meirelles e Nando Olival, vencedora em Gramado dos prêmios de melhor curta 35mm e melhor direção; A Pessoa É para o que Nasce, de Roberto Berliner, melhor documentário brasileiro no Festival É Tudo Verdade 99; Hi-Fi, colagem do incorrigível Ivan Cardoso sobre o movimento concretista feita sob o ponto de vista do poeta Augusto de Campos; baseado num episódio da infância de Pelé, Uma História de Futebol, de Paulo Machline; De Janela Para o Cinema, da carioca Quiá Rodrigues, melhor filme brasileiro e prêmio do público no recente Anima Mundi; Do Dia em que Macunaíma e Gilberto Freyre Visitaram o Terreiro da Tia Ciata..., de Sérgio Zeigler e Vitor Angelo, sobre um fictício encontro na origem do nascimento do Brasil; e do Rio Grande do Sul, tradicional centro de curta-metragistas, chegam Três Minutos, fita dirigida por Ana Luisa Azevedo, com roteiro de Jorge Furtado; e Nocturnu, de Dennison Ramalho, que levou os prêmios de curta 16mm e melhor direção em Gramado.

A Década do Curta

A Década do Curta é uma seleção dos filmes mais marcantes das edições anteriores do festival, um pequeno ciclo retrospectivo com 63 títulos distribuídos por nove programas – um para cada ano do evento – que também serão exibidos no Rio de Janeiro, no fim-de-semana de 27 a 29 de agosto. O panorama é bastante diversificado, começando por um filme de estudante, A Escada, realizado por André Barcinski, e indo até um dos mais premiados documentários de todos os tempos, o clássico do formato Now!, fortíssima montagem de fotografias e imagens de arquivo sobre o preconceito racial nos Estados Unidos, embaladas pela voz de Lena Horne (numa canção proibida na época) e reunidas pelo cubano Santiago Alvarez – mesmo recurso usado em outro excelente filme da mostra, o violento e irônico Ressureição, de Arthur Omar. Alguns dos diretores brasileiros mais promissores também estão presentes: enquanto os já célebres Jorge Furtado e Walter Salles trazem Esta Não É Sua Vida e Socorro Nobre, José Roberto Torero vem com Amor!, Eliane Caffé aparece com o surrealista Arabesco, Beto Brant com e Joel Pizzini com Enigma de Um Dia. Fechando a retrospectiva, alguns filmes estrangeiros de respeito: A Opinião dos Animais, animação do inglês Nick Park feita de uma série de entrevistas com animais de um zoológico, aí incluídos um divertido gato brasileiro; Bobagens, do diretor francês Jean-Pierre Jeunet; o finlandês Rock’y VI, de Aki Kaurismaki; e O Herói, de Carlos Carrera, fita mexicana vencedora da Palma de Ouro de Cannes-94.

Programas Especiais

O programa Orson Welles em Curtas, grande surpresa deste ano, traz seis pequenas raridades do diretor, entre elas sua primeira aventura no cinema, realizada em 1934, Os Corações da Juventude – que conta de maneira surrealista a estória de uma senhora que vê finalmente o momento de ser levada pela Morte, o próprio Welles, com uma exagerada maquiagem de velho. Fonte da Juventude, sua estréia na televisão em 1955, é o piloto de uma série cômica de televisão que Welles idealizou enquanto aguardava a oportunidade de retornar a Hollywood – mas que infelizmente se tornou mais um na lista de seus projetos a fracassar comercialmente. Em I Love Lucy Recebe Orson Welles, Lucille Ball se imagina estrelando "Romeu e Julieta" ao lado de Welles. Trailer de Cidadão Kane, bastante longo para o gênero, foi feito somente com cenas cortadas na edição final do clássico; Truques Mágicos de Longas-Metragens é formado por pequenas e fugazes cenas de filmes em que Welles aparecia fazendo truques de prestidigitação; e Comerciais para Uísque Japonês mostra um diretor já completamente excluído dos círculos dos grandes estúdios, tendo que se virar como pode para conseguir algum dinheiro – e assim tentar voltar a filmar.

O ciclo de programas especiais prevê ainda homenagens a dois renomados animadores: o americano Bill Plympton – com 17 de seus filmes, incluindo seu mais recente trabalho, Surprise Cinema – e o alemão Jochen Kuh, que comparece com outros cinco curtas. O cinema asiático, que vem se mostrando um dos mais inventivos e renovadores dos anos 90, chega com uma série de curtas da nova geração de diretores coreanos, em que se destaca Lim Chan-Jae, de filiação experimental – e que comparece ao festival com três filmes: De Lágrimas. Sobre Mim e Org. E, por fim, chega da França uma seleção de sete filmes locais feita para o festival pela revista Bref, ótima publicação dedicada ao curta-metragem e que também está completando dez anos.

Confira a programação no Rio

 

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Ressureição
de Arthur Omar