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" Em um nível, existe o grupo geral de cineastas que oferecem ao público bom entretenimento um ano após o outro. Acima deles, existem os artistas que fazem filmes mais profundos, mais pessoais, mais originais, mais excitantes. E finalmente, acima de todos esses, existe Ingmar Bergman, que é provavelmente o maior artista do cinema, levando-se em conta, desde a invenção da câmara de filmar."

Woody Allen

Ingmar Bergman é mundialmente conhecido por seus filmes intimistas e autorais. Dirigiu e escreveu cerca de quarenta filmes entre 1946 e 1982. Ganhou diversos prêmios e se tornou um dos maiores nomes da história do cinema mundial. Sua educação, suas paixões, suas questões diante da vida e sua própria vida sempre estiveram presentes em seus filmes.

Nascido em Upsala , famosa cidade universitária sueca, em 1918, filho de um pastor luterano de rígidos princípios morais, teve uma educação muito severa. Esta infância atormentada se tornaria uma grande fonte de inspiração, presente em diversos trabalhos, assim como a religiosidade e a disciplina. Ainda pequeno se encantou pelo cinema, chegando a economizar para comprar um projetor. Mas o teatro foi uma paixão ainda mais forte, ele costumava promover sessões caseiras de peças com marionetes. Sua infância é retrata de maneira muito pessoal, com algumas reconstruções fieis de fatos ocorridos com ele e com sua família, em um de seus últimos longa-metragem, Fanny e Alexander, que não chega a ser uma autobiografia, mas é uma ficção inspirada em sua vida.

Foi com o teatro o primeiro contato profissional de Bergman com o mundo dos espetáculos, e, assim como sua infância, o teatro também se tornaria uma fonte contastante de trabalho e inspiração. Bergman estudou literatura e história da arte na Escola Superior de Estocolmo, onde se formou em 40. Logo depois foi contratado como diretor-assistente do Teatro Dramaten, onde ficou até 42. Nesse período, começou a escrever roteiros para teatro e cinema passando a ser roteirista na produtora do Estado, e escrevendo para os mais importantes diretores da época. Depois da Guerra, foi diretor do Teatro Municipal de Gotemburgo e, um tempo mais tarde, do Teatro de Malmoe. Bergman nunca se desvinculou completamente do teatro, mesmo depois de declarar-se aposentado do cinema, continuou dirigindo e escrevendo peças.

Em 1944, Bergman teve seu primeiro roteiro cinematográfico filmado, Tormento (Hets). O filme foi dirigido pelo importante cineasta sueco Alf Sjörberg e obteve grande sucesso, o que abriu as portas para Bergman fazer seu primeiro filme, Crise (Kris), de 1945/6. Os críticos destacaram uma forte influência do realismo poético francês e principalmente da obra de Marcel Carné. O próprio Bergman se considerava um autor sem estilo e dizia copiar o daqueles que admirava. Extremamente pessimista, a obra não teve sucesso diante do público e da crítica. Só com Prisão, seu sexto filme, de 48, foi reconhecido em seu país.

Bergman só atingiria uma maturidade e um estilo próprio com Juventude, de 51, e com Monika e o Desejo, de 53; estudos românticos sobre o amor adolescente e as suas desilusões. Ainda em 53 ele filmou Noites de Circo e em 54 foi descoberto, através deste filme, pela crítica paulista, antes mesmo de ser reconhecido na Europa e no resto do mundo; o que só aconteceria um ano mais tarde com o filme Sorrisos de uma noite de amor, que recebeu um prêmio no Festival de Cannes, de 56, "por seu humor poético".

Sua obra trabalha temas como a incomunicabilidade, a solidão, os relacionamentos conjugais e seus problemas, o universo feminino, a crise da conceituação de Deus e os questionamentos diante da morte. Bergman foi um pioneiro ao tratar estes temas no cinema com seriedade e lirismo.

Bergman costuma trabalhar sempre com os mesmos atores e principalmente atrizes, em sua maioria vindos de uma companhia de atores teatrais que migraram para o cinema especialmente para a câmara de Bergman e depois seguiram carreira com outros cineastas. Liv Ullman, que durante anos foi casada com o diretor, Bibi Anderson, Ingrid Thulin e Max von Sydow são alguns desses grandes atores revelados para o mundo por Bergman.

Uma outra característica marcante na obra do diretor de Gritos e Sussurros são os closes, enormes em tamanho, isto é, em proximidade, e em duração. "Alguns dias você acorda cheio de vitalidade. Querendo dar tudo de si e sugar tudo dos seus atores, querendo ultrapassar limites e testar novas fronteiras. Nestes dias você sabe o tanto que um close-up pode ser maravilhoso e revelador, apesar de extremamente difícil. Outros dias você acorda com preguiça de tudo, nestes dias você pensa; ‘acho que hoje é um bom dia para fazer um plano geral, a uma grande distância"" diz Bergman.

O Sétimo Selo, seu décimo-sexto filme ,de 1957, é considerado um obra-prima do cinema mundial, foi internacionalmente aclamado e ganhador do prêmio especial do júri no Festival de Cannes, do Gran Premio Lábaro de Ouro na V Semana Internacional de Cinema Religioso e de Valores Humanos de Valladolid.

Morangos silvestres é um dos filmes mais premiados de Bergman, ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim de 1958 e o Globo de Ouro da Associação de Jornalistas estrangeiros em Hollywood em 1959 entre outros. Para muitos esta é sua melhor obra. Nela destaca se o trabalho de interpretação do cineasta sueco Victor Sjöstrom, como o professor Isak Borg.

Com A Fonte da donzela, de 60, Bergman ganhou seu primeiro Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. A este se seguiram o de 1961 com Através de um Espelho e o de 1983 com Fanny e Alexander. Por este último ele concorreu ao prêmio de melhor diretor, no mesmo ano.

Depois de Fanny e Alexander, em 1983, Bergman resolveu se afastar das câmaras. "Depois de Fanny e Alexandeer não farei mais nenhum longa-metragem. Nunca me diverti tanto e nunca trabalhei tanto. O filme representa a soma da minha vida como realizador. Os longas-metragens agora são para os jovens, tanto física quanto mentalmente. Se eu ainda vier a escrever, alguém dirigirá" disse Bergman na ocasião. Mas ele não cumpriu seu juramento e já em 84 voltava aos estúdios para filmar Depois do Ensaio. Em 85 ele filmou um documentário de curta-metragem sobre sua mãe, A Face de Karin, e em 86 um documentário do making off de Fanny e Alexander, Diário de uma Filmagem.

Em 1992, dois roteiros de Bergman foram filmados. As Melhores Intenções, baseado na história real de seus pais, dirigido por Bille August ( de Pelle, o conquistador) e Crianças de Domingo, um acerto de contas bem humorado e comovente com seu pai, foi dirigido por seu filho Daniel Bergman.

Ano passado, 98, Bergman voltou mais uma vez à direção. Desta vez para fazer um filme especialmente para a televisão, batizado em português como Um mundo de Luz e de Sombra , exibido no Brasil pelo canal Multishow na ocasião das comemorações dos 80 anos do diretor.

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