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As ilusões
da câmera-caneta
Leopoldo Serran

 

Sou um roteirista de cinema. Se me perguntarem como foi que acabei tendo uma profissão tão estranha, a resposta é: não me lembro. No meu tempo as crianças sonhavam em ser pilotos de caça, jogadores de futebol ou coisa parecida. O certo é que escrevi um filme, depois outro e acabei por escrever mais de quarenta, dos quais uns vinte e oito acabaram na tela.

Hoje, pensando melhor, vejo que a escolha não foi tão absurda assim. Largando o curso de Direito no terceiro ano e tentatndo encontrar um rumo na vida, verifiquei que a única coisa que eu sabia fazer era escrever. Mas escrever o quê? O grande romance brasileiro? É claro que a idéia passou por minha cabeça juvenil, mas as leituras deixaram claro que desde Machado de Assis milhares de autores vinham tentando isso sem qualquer sucesso.

E havia também a dolorosa questão da sobrevivência. O que fazer? Ser funcionário público e escritor noturno? Não, eu era uma pessoa indisciplinada demais para ser funcionário público. Resolvi colocar minha Lettera 22 a serviço da minha sobrevivência. Fui redator de publicidade, escrevi programas de televisão e, principalmente, escrevi filmes.

Engana-se quem pensa que essa opção mercenária tenha me trazido lucros financeiros. Bem ao contrário, trouxe uma vida de dificuldades, altos e baixos, em que o temor quase constante é o início do mês seguinte. Por outro lado, livrou-me da rotina e da pasmaceira. A instabilidade tem lá suas vantagens.

O ano de 1962 foi um péssimo ano para se optar pela profissão de roteirista de cinema porque a mídia do mundo inteiro estava tocando o reajejo do cinema-de-autor, invenção da crítica francesa. Segundo a teoria, o autor único do filme é o seu diretor que escreve com a câmera como o escritor com sua caneta.

Num artigo escrito para o The New York Times Review of Books, em 1976, e publicado aqui no livro De Fato e de Ficção, Gore Vidal nos conta o que o Sábio-Picareta costumava dizer aos escritores recém-chegados à MGM: "O homem ambicioso é o produtor, o bonito é o ator e o talentoso, o escritor. O diretor é o cunhado." E também nos revela o espanto de todos aqueles cunhados quando "notícias espantosas da França" os transformavam em "artistas autônomos e originais".

A partir daí foi um Deus-nos-acuda. Quando abrimos os olhos, Guerra e Paz era "um filme de King Vidor", Os Irmãos Karamazov, um filme de Richard Brooks e O Grande Gatsby, um filme de Jack Clayton. Sabemos que não existe opinião-pública, só opinião publicada. Isso é tão antigo quanto Gutemberg. Mas é sempre curioso observar a vitória total de uma balela sobre a verdade. A mentira repetida muitas vezes é capaz de se fazer realidade mesmo em cabeças sofisticadas. Anos atrás, o ex-ministro Mário Henrique Simonsen escrevia: "o Salieri de Milos Forman..." Refería-se ao filme Amadeus e julgava Milos Forman, diretor do filme, o criador do personagem Salieri. Bem, o criador é o autor da peça e roteirista do filme, Peter Shaffen. Aqui entre nós, Milos Forman não teria capacidade de criar um Salieri daqueles. Mas como poderia Simonsen saber disso, se Amadeus é "um filme de Milos Forman"? Tente explicar para a garotada que E o vento levou... não é um filme de Vitor Flemming. Não, não tente. Você não vai conseguir.

A verdade é que são raríssimos os "filmes de" alguém. Em sua esmagadora maioria os filmes são um trabalho de equipe. Trabalho exaustivo, sofisticado, complicado, inter-relacionado; misturas torturantes dos egos gigantescos dos produtores, diretores, escritores, fotógrafos, cenógrafos, montadores, sem falar nos egos dos atores. Como um gozador já declarou, querer saber quem fez exatamente o quê num filme é como querer relatar o que aconteceu numa orgia à qual você não compareceu por não ter sido convidado.

Desnecessário dizer que por aqui no nosso quintal o cinema-de-autor foi um sucesso só. Batalhões de neuróticos com espinhas no rosto sairam por aí escrevendo adoidados com suas câmeras-canetas. O resultado foi um luxo. Centenas de filmes que só passavam, quando passavam, por ser obrigatório e que não pagavam sequer as cópias. A partir dos anos 80 o divórcio litigioso entre diretores-autores e platéia estava consumado. Mas também não tente provar para a garotada que tudo não foi culpa do Collor e do PC Farias. Você não vai conseguir.

Hoje, com a retirada do Estado como produtor único de filmes e a chegada de empresas particulares com seus recursos transferidos do Imposto de Renda alguma coisa começa a mudar. O dinheiro já não é tão irresponsável quanto o dinheiro público e o assunto roteiro começa a ser "descoberto". Não posso deixar de sorrir internamente ao ver jovens jornalistas e aficcionados "descobrindo" o óbvio ululante: sem um roteiro não há filme. Bem, nunca houve.

Nosso desafio agora é formar roteiristas. Como a atividade foi ignorada ou relegada a segundo plano por décadas de cinema-de-autor, a tarefa não é fácil, Mas onde há dinheiro, o talento sempre aparece. O problema é saber se esse dinheiro deslocado do Imposto de Renda será responsável ou não. Tenho cá minhas dúvidas. Tenho visto muito amadorismo por em homens que tinham obrigação de ser profissionais.

A coisa ainda está ruim, mas quem sabe não melhora? Somos o "país dos coitadinhos". Nossos times de futebol e escolas de samba não descem para a segunda divisão. Saem da divisão A1 para a divisão A2. Nosso povo é muito susceptível. Nossos artistas também. Mas não há mal que sempre dure e um dia iremos largar os eufemismos. Não diremos mais instigante, curioso, difícil, promissor. Vamos ter a coragem de chamar um filme chato de chato.

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