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Marcos
Magalhães
A Estrela para Fernando Diniz é o princípio e o fim de tudo. Estrela
de Oito Pontas, título por ele escolhido para seu primeiro filme de animação, pode
significar também a rosa dos ventos, uma bússola para nos orientar por seu universo
interior.
Trabalhar com Fernando Diniz, que mora há cerca de cinqüenta anos no Hospital
Psiquiátrico Pedro II, tem sido uma experiência difícil de exprimir por palavras.
Fernando é um dos gênios artísticos descobertos e lapidados pelo trabalho da Dra. Nise
da Silveira e seus seguidores no Museu de Imagens do Inconsciente.
O principal objetivo do projeto apresentado à Fundação Vitae em 1993 foi
proporcionar a Fernando a oportunidade de exprimir suas próprias idéias e contar
estórias usando o cinema de animação. O Tempo é um assunto que o fascina, lado a lado
com a física quântica, a anti-matéria, o buraco negro e tudo o que se refere aos
mistérios da forma e do espaço.
Peixe, pão, melancia, abacaxi, casa de abelha, balão... palavras sem fim
jorram da boca desdentada de Fernando, exprimindo na verdade um complexo sistema de
representação das formas existentes no universo. Por meio das imagens em movimento tudo
se torna surpreendentemente mais claro. A música (parte dela composta pelo próprio
Fernando em suas gaitas de boca, em arranjos feitos com muita sensibilidade por Túlio
Mourão) ajuda a costurar esta linguagem.
Terminar o "Filme de Fernando" (o nome provisório do projeto) demorou
alguns anos. Num dia de 1988, Alice de Andrade me falou dos quadros de Fernando expostos
no Museu de Imagens do Inconsciente, e me convidou a ir conhecê-lo. Ele chamava a série
de "Cinema". Desde que Leon Hirzman fizera sobre Fernando um dos episódios do
documentário "Imagens do Inconsciente" e o fotógrafo Luís Carlos Saldanha
começara a saciar a curiosidade de Diniz sobre a captura de imagens em movimento, teve
início mais uma de suas pesquisas. Na falta de uma câmera, ele usou o mesmo suporte em
que sempre trabalhara: papéis, tintas, e telas. O resultado foram vários desenhos em
seqüências de movimentos, que se fossem filmados quadro-a-quadro já fariam um belo
efeito.
Mas conhecer Fernando e sentir seu entusiasmo autêntico, sua cachoeira verbal
de idéias desencontradas (das quais confesso que entendia muito pouca coisa), foi fatal:
nunca vi tamanha sede de conhecimento. O olhar de Fernando, difícil de capturar, brilha
quando vê novidade. E a palavra "cinema" era encantadora para ele. Me vi diante
do "aluno" mais intrigante; e passei anos aprendendo que, ao invés de um
"aluno", encontrara ali um verdadeiro mestre.
Me parecia claro que Fernando só precisava tentar algo diferente, e ele estava
muito disposto. A base de tudo era muito simples: os desenhos que ele fazia sobre a tela,
passaria a fazer em folhas separadas de papel, que depois seriam filmadas.
O pessoal do Museu me contava que Fernando costumava pintar
"fotograma" sobre "fotograma" por cima de uma mesma tela a óleo; ou
seja, o que deveria ser uma sequência a ser colocada em ordem na película e projetada em
movimento, acabava virando uma espessa camada de tinta. O resultado final continuava belo;
mas sua tradução para o espectador dizia bem menos do que a real intenção do artista.
Uma coisa que logo aprendi, ao ver a reação de Fernando com os primeiros copiões, era
de que o resultado final não lhe importava tanto quanto o que ele "aprendera"
ao fazer os desenhos. Éra como se ele já estivesse vendo o filme ao fazer a sequência
de desenhos. E estava sempre ávido pela próxima "lição".
Estas "lições", ele as tomava sozinho. O que fiz de mais concreto
para estimular a auto-pesquisa de Fernando foi dar a ele uma mesa de luz (no dia de seu
aniversário), uma resma de papel ofício e uma regüinha com um par de pinos (o registro)
para segurar os papéis enquanto estivesse desenhando. Expliquei-lhe como pude a técnica
tradicional, e ele pareceu entender. Quando o encontrei, depois de algumas semanas, ele me
mostrou não só a resma toda preenchida de desenhos belíssimos, mas ainda algumas
centenas de papéis (versos de memorandos do hospital, papel jornal, e o que mais pudesse
receber desenhos) repletos de figuras. Apesar de ter ignorado minhas recomendações sobre
o registro (aliás, eu nunca mais vi a tal regüinha...), o que evitaria oscilações
entre um desenho e outro, ainda assim aquelas imagens me pareceram "animáveis".
Para tirar a prova, reuni pontas de negativos 16mm e pedi ao pessoal do CTAv do
IBAC (hoje Funarte) que filmasse os desenhos. O resultado me estimulou a levar a coisa à
frente. Combinei com a equipe do Museu encontros semanais (sempre às quartas-feiras) no
CTAv; acho que este foi o "point of no return". Desde então Fernando passou a
trazer centenas de desenhos coloridos para serem filmados.
Por princípio, decidi não "ajudar" a animação com qualquer truque
de filmagem ou edição. Desta forma, Fernando logo aprendeu a controlar o ritmo de suas
imagens. "Para aparecer, tem que fazer mais de cem" dizia ele, e a regra
funcionou cada vez melhor. A vibração de suas imagens, um "defeito" devido à
falta do registro, deu vida e emoção a seus rabiscos. Desta primeira série de cenas,
existem seqüências fantásticas, como um jogo de basquete em que a câmera acompanha a
trajetória da bola, vendo os jogadores em grande angular.
Já com as primeiras cenas filmadas e telecinadas, conheci Cláudia Bolshaw, que
também acompanhava e estudava o trabalho de Fernando. Cláudia se ofereceu a atuar como
produtora do filme, e em 1994 conseguimos para Fernando a Bolsa Vitae de Artes que
permitiu finalizar o projeto. A tese de mestrado que Cláudia vem desenvolvendo sobre as
"estrelas" de Fernando Diniz acrescentou ao trabalho uma nova dimensão; a
partir desta, tornou-se possível começar a decifrar a estrutura da teoria estética de
Fernando. E as conclusões nos ajudaram de forma decisiva a resolver a forma final do
filme.
Convivemos sempre com a inevitável sensação de que os doze minutos do curta
seriam ínfimos para a quantidade de assuntos tratados por Fernando em suas cenas: o
material criado poderia encher algumas horas de projeção. Mas o filme tinha que ser
curto e eficiente. Nunca achamos que este pudesse ser um filme fácil, mas tínhamos a
intenção de que ele alcançasse um público geral, incluindo os que nunca souberam de
trabalhos como os realizados com os freqüentadores do Museu.
Uma grande dificuldade foi selecionar as cenas e encaixá-las numa ordem
aceitável. Mas havia uma que desde o início estava destinada a encerrar o filme: o
Cavalinho.
Esta cena foi integralmente animada na mesa de luz do CTAv, durante os encontros
de quarta-feira. Uma coisa que já havíamos observado, comprovando o efeito do
"afeto catalisador" descrito pela Dra. Nise da Silveira, era que Fernando só
desenhava cenas figurativas quando se sentia acompanhado. Este "cavalinho"
representa a realização do projeto original, que buscava uma estória contada pela
animação de Fernando Diniz. Ele conta nesta sequência, de forma simbólica, toda a sua
trajetória de vida: depois ser derrubado do cavalo bravo, o cavaleiro consegue domá-lo e
sair "cavalgando" por entre as imagens (referências a todas as suas principais
fases pictóricas). Finalmente, ele "mergulha" na mandala das estrelas, para
emergir na casa dos sonhos de Fernando: uma sala, com piano, móveis antigos, e janelas
escancaradas, para onde a câmera se dirige num vôo de liberdade.
Fernando Diniz continua em atividade no Museu, prosseguindo em suas pesquisas
sem esperar novas oportunidades. Porém, tudo o que Fernando faz parece livre de barreiras
de tempo e espaço. Para ele, o filme em si não parece ser o mais importante de tudo. A
"lição" sim, e outro dia ele falou que "esta lição está dando
certo". Para quem o conhece, isto é mais compensador que qualquer prêmio em
festival; e olha que Fernando adora uma festa e um troféu!
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