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Pérola

David França Mendes

Enquanto boa parte do cinema que se faz por aí sofre de exasperante falta de assunto, A ostra e o vento acumula camadas e mais camadas de significados, idéias e sugestões. Enquanto nove entre dez realizadores jovens entoam o monótono mantra do mercado e se dedicam obsessivamente a negar o cinema como expressão pessoal, Walter Lima Jr. filma A ostra e o vento como se filma um poema e faz cinema de autor. Entendeu? C-i-n-e-m-a-d-e-a-u-t-o-r .

Sob muitos aspectos, o papo de cinema de autor alimentou um treco nefasto que é o fenômeno do cineasta como figura pop. Surge a griffe Tarantino, por exemplo. Não importa se você gosta ou não do cara, não é isso que estou discutindo. O que importa é: hoje o primeiro filme de qualquer pé-rapado, qualquer curta 16 mm de estreante, vem pomposamente assinado "um filme de Fulano de Tal". Bobagem? Não. Isso é sintomático de uma atitude vaidosa e vazia em relação ao cinema.

Então por que comemorar o aparecimento de um legítimo filme de autor? Porque o que há de interessante na idéia de cinema autoral não tem nada a ver com vaidade e autopromoção. Tem a ver com expressão sincera e criativa de um universo, seja ele pessoal, social, étnico, histórico ou o que for.

A Mostra Rio abre, nesta quinta, dia 18 de setembro, com essa verdadeira pérola (perdoe o trocadilho infame) do cinema que é A ostra e o vento, de Walter Lima Jr. Um belo ponta-pé inicial.