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A seção Première Brasil da 9a. Mostra Rio começou nesta
sexta-feira com a apresentação de Miramar, novo filme de Júlio Bressane. Novo
talvez não seja bem o termo, já que não é de hoje que Bressane se dedica com afinco a
ser fiel a si mesmo, para o bem e para o mal, goste você ou não.
Lá em Miramar estão as mesmas locações de tantos outros de
seus filmes, alguns planos muito semelhantes a outros de outros filmes. Está lá também
o gosto pela literatura e pela música popular dantanho. Está lá o desprezo de
sempre pela narrativa. Para Bressane, cinema é ensaio, ou é poema, ou é piada, é
qualquer coisa menos a progressão dramática dos fatos, de um dado ponto a
até um certo ponto final.
Ponto-de-partida, aliás, até há. Não se pode dizer que Bressane
adapte para a tela qualquer coisa, no sentido em que se diz que O paciente
inglês ou O que é isso companheiro? são adaptações literárias ao cinema.
Por isso é melhor dizer que o romance de Oswald de Andrade Memórias sentimentais de
João Miramar é o ponto-de-partida para o filme de Bressane.
Por algum motivo que só ao próprio cineasta caberia esclarecer, há
uma identificação no filme entre o personagem Miramar e a biofilmografia de
Júlio Bressane. O Miramar de Bressane é um jovem cineasta em busca de uma
linguagem. Quando a encontra, filma O anjo nasceu.
Bressane sempre fez um cinema referencial, coalhado de citações a todo
tipo de cinema (e literatura e música, como disse acima) - clássicos americanos, Orson
Welles, filmes B, nouvelle vague, Limite etc. -, mas em Miramar boa
parte das referências são simplesmente autoreferências. O enciclopedista cita seus
próprios verbetes e, cada vez mais, a obra de Bressane se parece a uma cobra que se
devora - a imagem algo fálica plenamente justificada pela cena do felátio digital
perpetrado por Fernanda Torres.
Sou fã do Bressane de Tabu, de Matou a família e foi ao
cinema, de Os Sermões, de muitos dos seus filmes dos tempos da BelAir. Mas
não sou fã desse Bressane narciso, debruçado de tal forma sobre a própria imagem que
não me sobra um canto, um ângulo sobre seu ombro para poder vislumbrar, mesmo que
brevemente, que imagem é essa, tão fascinante, da qual o cineasta não desgruda mais os
olhos.  |