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Luciana Hidalgo

Eles estão por toda parte, os franceses. Pelo menos nessa nona edição da MostraRio, onde a França se espalha sem fronteiras, seja pela voz de seus cineastas mais célebres, pelas confissões de Alain Delon, pelo que há de mais experimental nos curtas franceses. São inúmeros títulos, que destacam modos e manias de Jean-Luc Godard e François Truffaut, os bastidores da Nouvelle Vague, a intimidade de Antonin Artaud e muito mais.

O crème de la crème está reunido em Filme Documento - O cinema francês visto por..., uma série de documentários que soa como confessionário. É tudo o que o espectador gostaria de saber sobre seus ídolos, mas nunca teve acesso. Chegou a hora. Jean-Luc Godard é um dos que mais se expõem no filme que leva seu nome, realizado em 1987 por Claude Ventura. Lá estão as diversas fases do diretor, da irreverência nos anos 60 à maturidade dos 80. E algumas de suas estranhas histórias - como quando ele implicou com o cabelo de Brigitte Bardot, arrumado num coque alto demais, e convenceu a moça a baixar o topete; mas só conseguiu depois de plantar bananeira e jogar muita conversa fora.

Jean-Luc Godard traz cenas de filmagens, ataques de nervos do cineasta com técnicos e muitos depoimentos. Num deles, o diretor não esconde o idílio com Orson Welles, “a quem o cinema deve tudo”. É sobretudo nas entrelinhas que Godard se revela. A certa altura, ele afirma: “O espectador é o juiz.” Para sorte de seu público, ele é verborrágico e não poupa palavras de ordem. Sobre os atores, é veemente e os compara a operários: acha que deveriam ficar horas diante do espelho, ensaiando, assim como funcionários de fábricas trabalham oito horas diárias. São palavras e mais palavras, entremeadas com trechos de Weekend e tantos dos seus filmes cultuados.

François Truffaut ou o espírito crítico, de Jean-Pierre Chartier, é outro documento revelador sobre o pensamento de um dos maiores nomes do cinema francês. O filme é autobiográfico e tem ele mesmo mostrando seu cinema, com comentários desconcertantes. Exemplo: Truffaut confessa que não gosta de filmar cenas de amor e por isso prefere a penumbra ou apenas a sugestão de um romance. Simplesmente porque não é chegado a tomadas românticas, quem diria.

A série de documentários revela ainda a intimidade de Alain Resnais, Claude Chabrol, Jean Renoir, Robert Bresson, Abel Gance e outros nomes associados ao cinema na França, como Henri Langlois, o salvador da pátria que criou a cinemateca francesa em 1936 e conservou a memória cinematográfica local. Fora desse circuito, na mostra Panorama do Cinema Mundial, vale ainda um olhar sobre Minha vida com Antonin Artaud (En compagnie d’Antonin Artaud, França, 1993), de Gérard Mordillat, outro francês de peso. Trata de um encontro fictício entre Artaud, depois dos nove anos de internação no hospício de Rodez, e Jacques Prevel. Em pauta, elucubrações poéticas, drogas e a rotina do pós-guerra em Paris.