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A filosofia das senhas cotidianas
A última edição do Café Filô aconteceu no dia 3 de abril e contou com a participação da filósofa Cláudia Castro, o matemático Carlos Tomei e a sexóloga Regina Navarro Lins que discutiram vários aspectos da questão da senha: o e-mail, os cartões e caixas eletrônicas, os códigos dos casais, a segurança, o mundo privado e a posse. É possível decifrar a senha? Quem começou palestrando foi a sexóloga Regina Navarro Lins, que abordou as senhas em um relacionamento e diferentes visões que as pessoas têm do amor. “Eu vou falar da relação de amor e sensualidade. Para falar do amor, eu tenho que falar do amor romântico. Este amor é aquele que a gente aprendeu que é impossível viver sem. As pessoas passaram a acreditar que sem este amor a vida não tem graça.” Ela contou que no século XII nasceu o amor cortês, onde só os filhos primogênitos se casavam por causa das heranças, que não eram divididas. Assim, sobravam vários jovens solteiros que se apaixonavam pelas damas e que só podiam viver um amor idealizado, logo sofrido. “Surgiu nesta esteira, no Ocidente, o amor romântico. Antes, as pessoas não casavam-se por amor. Isso é uma coisa recente já que casamento era uma coisa muito séria para se misturar com amor.” Para Regina, no amor
romântico acontece uma idealização do outro, regido por
impossibilidades que são as expectativas ideais: ter sempre aquele único
amor, a vida só é boa quando se está com a pessoa amada, não se
interessar por ninguém mais, e etc: “o que eu considero mentiras!”,
completa. Com a Revolução
Industrial e a saída do campo, surge a família nuclear formada por pai,
mãe e filhos. “Neste momento o amor romântico passou a ser uma
possibilidade do no casamento. E cinema de Hollywood perpetuou isso. As
expectativas de um casamento mudaram com a entrada do amor. Só que amor,
casa, sexo, são valores que não estão dando mais respostas. Então as
pessoas passam a escolher novas formas de se viver fora deste modelo
enquadrado”, afirmou Regina. A sexóloga contou que vivemos um dilema: o desejo de simbiose versus o desejo de liberdade. Porém, vivemos um momento muito interessante, o do desmoronamento patriarcal. E a pílula anticoncepcional foi um golpe fatal nesse sistema. Os códigos dos
relacionamentos estão mudando e em termos de tendência, até a
fidelidade amorosa está mudando. As pessoas não fazem mais tantos sacrifícios
pelas outras e a grande busca agora é pelo próprio interior, o
desenvolvimento pessoal do “eu” e não do casal. Regina encerrou a
primeira parte da sua participação explicando que o código de uma relação
é estabelecido desde o início da relação amorosa e que gestos
(sorrisos, olhares, etc) podem falar mais do que palavras. Quem tomou a palavra em seguida foi a filósofa Cláudia Castro que tomou o ponto em que Regina Navarro Lins havia parado: “Os gestos comunicam com muito mais verdade que as palavras. E uma das coisas que me interessou quando eu recebi o convite para participar do Café Filô foi a questão: é possível decifrar a senha?”. Ela leu então “Sobre
a Linguagem em geral e sobre a Linguagem do Homem”, texto de Walter
Benjamin, um filósofo marcado pela mística, que tratava sobre a
compreensão filosófica dos códigos do corpo: “Ele pode ser
considerado um visionário, alguém que está em busca de um pensamento
que não se baseia na consciência”. Cláudia contou que o
texto não foi escrito pensando em sua publicação, mas para reflexões
do próprio autor. “Será que a linguagem é exclusividade do homem? Ele
busca esta compreensão de linguagem na Bíblia, na Gênesis”, explicou
a filósofa que também abordou Deleuze e Nietzsche. O Matemático Carlos
Tomei contou duas histórias baseadas em fatos reais. Uma falava de um
trilhão de dólares que diariamente mudam de mãos através dos bancos,
por meio de mensagens criptografadas. Ele explicou o processo que utiliza
fatorações e números primos de 200 algarismos. A segunda mostrava como
era possível através de perguntas simples, uma pessoa em viagem tirar
dinheiro em um caixa eletrônico de Bali. “Esses protocolos (perguntas e
respostas como “qual o dia do seu aniversário?”)
mostram que você sabe a senha sem dar dicas sobre ela. A senha não
é o tesouro, mas é o acesso a ele”, afirmou. A platéia também
participou com perguntas, comentários e muitas histórias pessoais
envolvendo senhas, segredos, principalmente dos e-mails pessoais. Uma das
questões abordadas foi: “Para que esconder tanto em um mundo contemporâneo
em que as pessoas buscam liberdade?”. A filósofa Cláudia Castro
respondeu dizendo que o que ela chama de senha é a linguagem da
liberdade. A linguagem a qual ela se referiu clama pela fala, que
coloquemos o jogo na mesa para nos comunicarmos saindo da subjetividade. Regina Navarro Lins
concordou dizendo que a senha é uma palavra multifacetada, tratando a
senha como acesso. “As pessoas muitas vezes não querem o acesso, querem
o atalho! Mas, alguém tem alguma dúvida de que segredos são
importantes?”, encerrou a sexóloga.
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