A filosofia das senhas cotidianas



O limite de entrada no mundo do outro: a senha. Este foi o tema do quinto e último Café Filô que quinzenalmente durante todo o Verão Odeon BR foi um ponto-de-encontro para se debater e filosofar sobre os assuntos importantes do nosso cotidiano, sem o rigor das discussões acadêmicas. Nestes encontros, as organizadoras do evento, a roteirista Melanie Dimantas e a editora e livreira Ana Paula Martins receberam convidados de diversas áreas para falar sobre temas como: a praça, a tecnologia e o tempo roubado, publicidade e violência e culto ao corpo. 

A última edição do Café Filô aconteceu no dia 3 de abril e contou com a participação da

filósofa Cláudia Castro,  o matemático Carlos Tomei e a sexóloga Regina Navarro Lins que discutiram vários aspectos da questão da senha: o e-mail, os cartões e caixas eletrônicas, os códigos dos casais, a segurança, o mundo privado e a posse. É possível decifrar a senha?

Quem começou palestrando foi a sexóloga Regina Navarro Lins, que abordou as senhas em um relacionamento e diferentes visões que as pessoas têm do amor. “Eu vou falar da relação de amor e sensualidade. Para falar do amor, eu tenho que falar do amor romântico. Este amor é aquele que a gente aprendeu que é impossível viver sem. As pessoas passaram a acreditar que sem este amor a vida não tem graça.”

Ela contou que no século XII nasceu o amor cortês, onde só os filhos primogênitos se casavam por causa das heranças, que não eram divididas. Assim, sobravam vários jovens solteiros que se apaixonavam pelas damas e que só podiam viver um amor idealizado, logo sofrido. “Surgiu nesta esteira, no Ocidente, o amor romântico. Antes, as pessoas não casavam-se por amor. Isso é uma coisa recente já que casamento era uma coisa muito séria para se misturar com amor.”

Para Regina, no amor romântico acontece uma idealização do outro, regido por impossibilidades que são as expectativas ideais: ter sempre aquele único amor, a vida só é boa quando se está com a pessoa amada, não se interessar por ninguém mais, e etc: “o que eu considero mentiras!”, completa.

Com a Revolução Industrial e a saída do campo, surge a família nuclear formada por pai, mãe e filhos. “Neste momento o amor romântico passou a ser uma possibilidade do no casamento. E cinema de Hollywood perpetuou isso. As expectativas de um casamento mudaram com a entrada do amor. Só que amor, casa, sexo, são valores que não estão dando mais respostas. Então as pessoas passam a escolher novas formas de se viver fora deste modelo enquadrado”, afirmou Regina.

A sexóloga contou que vivemos um dilema: o desejo de simbiose versus o desejo de liberdade. Porém, vivemos um momento muito interessante, o do desmoronamento patriarcal. E a pílula anticoncepcional foi um golpe fatal nesse sistema.

Os códigos dos relacionamentos estão mudando e em termos de tendência, até a fidelidade amorosa está mudando. As pessoas não fazem mais tantos sacrifícios pelas outras e a grande busca agora é pelo próprio interior, o desenvolvimento pessoal do “eu” e não do casal.

Regina encerrou a primeira parte da sua participação explicando que o código de uma relação é estabelecido desde o início da relação amorosa e que gestos (sorrisos, olhares, etc) podem falar mais do que palavras.

Quem tomou a palavra em seguida foi a filósofa Cláudia Castro que tomou o ponto em que Regina Navarro Lins havia parado: “Os gestos comunicam com muito mais verdade que as palavras. E uma das coisas que me interessou quando eu recebi o convite para participar do Café Filô foi a questão: é possível decifrar a senha?”.

Ela leu então “Sobre a Linguagem em geral e sobre a Linguagem do Homem”, texto de Walter Benjamin, um filósofo marcado pela mística, que tratava sobre a compreensão filosófica dos códigos do corpo: “Ele pode ser considerado um visionário, alguém que está em busca de um pensamento que não se baseia na consciência”.

Cláudia contou que o texto não foi escrito pensando em sua publicação, mas para reflexões do próprio autor. “Será que a linguagem é exclusividade do homem? Ele busca esta compreensão de linguagem na Bíblia, na Gênesis”, explicou a filósofa que também abordou Deleuze e Nietzsche.

O Matemático Carlos Tomei contou duas histórias baseadas em fatos reais. Uma falava de um trilhão de dólares que diariamente mudam de mãos através dos bancos, por meio de mensagens criptografadas. Ele explicou o processo que utiliza fatorações e números primos de 200 algarismos.

A segunda mostrava como era possível através de perguntas simples, uma pessoa em viagem tirar dinheiro em um caixa eletrônico de Bali. “Esses protocolos (perguntas e respostas como “qual o dia do seu aniversário?”)  mostram que você sabe a senha sem dar dicas sobre ela. A senha não é o tesouro, mas é o acesso a ele”, afirmou.

A platéia também participou com perguntas, comentários e muitas histórias pessoais envolvendo senhas, segredos, principalmente dos e-mails pessoais. Uma das questões abordadas foi: “Para que esconder tanto em um mundo contemporâneo em que as pessoas buscam liberdade?”. A filósofa Cláudia Castro respondeu dizendo que o que ela chama de senha é a linguagem da liberdade. A linguagem a qual ela se referiu clama pela fala, que coloquemos o jogo na mesa para nos comunicarmos saindo da subjetividade.

Regina Navarro Lins concordou dizendo que a senha é uma palavra multifacetada, tratando a senha como acesso. “As pessoas muitas vezes não querem o acesso, querem o atalho! Mas, alguém tem alguma dúvida de que segredos são importantes?”, encerrou a sexóloga.



(Dominique Valansi)





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