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Tempo
de filosofar sobre o tempo O Café Filô já virou
o ponto-de-encontro mais charmoso do verão para se refletir os temas do
dia-a-dia sem o rigor ou a formalidade das discussões acadêmicas. Na sua
segunda edição, que aconteceu na quinta-feira dia 13 de fevereiro,
o tema foi Tempo roubado: tecnologia, tempo e espaço. Falou-se
sobre a velocidade dos meios de transporte, a rapidez dos meios de
comunicação, a facilidade de sermos localizados a qualquer momento, o
conceito de otimizar o tempo. Tudo que nos é oferecido para agilizar a
vida (celular, computador, bandas largas, globalização) visto como feitiço
tecnológico, criação do homem, alterando as linhas de tempo e espaço.
Ao encurtar o espaço com a proposta de "diminuir o tempo
perdido" e "poupar tempo", "correr contra o
tempo" o homem acelerou o ritmo das vidas humanas. Para este encontro, as organizadoras Melanie Dimantas e Ana Paula Martins receberam convidados muito especiais: o compositor e cantor Fausto Fawcett, a filósofa e matemática Tatiana Roque, a jornalista e fundadora do Dia Internacional da Preguiça e Contra a Inércia Carla Miguelote, a filósofa Elza Buadas, e Clóvis Brigagão. O
cientista político Clóvis Brigagão abriu o evento brincando:
“Nós estamos aqui nessa difícil missão de falar sobre o tempo. Eu
preferiria estar pescando ou amando, que é a melhor forma de se ganhar
tempo”. Ele explicou como os transportes foram os vetores da transformação
do tempo. O automóvel, que antigamente servia para passeios (lazer),
hoje é usado para se chegar mais rápido aos lugares. Os mísseis,
aceleração máxima do tempo tecnológica, antes chegariam da antiga União
Soviética aos Estados Unidos (e vice-versa) em trinta minutos, mas, até
a assinatura dos acordos de não-violência, este tempo havia tinha sido
reduzido para dois minutos e meio. Clóvis também afirmou que o indivíduo
não tem mais tempo para refletir, e polemizou dizendo que a filosofia
acabou. Em seguida, Elza Buadas
falou sobre o tempo, a partir do pensamento do filósofo alemão
existencialista Martin Heidegger. Ela analisou as tecnologias e suas
conseqüências não como instrumentos mas como objetos para a reflexão,
a tecnologia como aplicação da ciência e as mudanças físicas
constantes do mundo. Para Elza, o tédio é uma forma de se parar a
correria do mundo moderno. Para problematizar o
tempo, a matemática Tatiana Roque o dividiu em duas categorias:o
intensivo e o extensivo. Para se medir um comprimento, calcula-se quantas
vezes uma unidade de medida cabe ali. Assim, o tempo extensivo é aquele
que pode ser medido e subdividido em anos meses, etc. Para explicar o
tempo intensivo, ela usou o exemplo de dois baldes de água, a 30O
cada um: juntos, eles não chegariam a 60O, mas teriam sempre a
mesma temperatura. O tempo intensivo é parecido pois se refere aos
acontecimentos que acontecem no momento certo: acasos, ocasiões, coincidências,
encontros inesperados. Este tempo é o da criação e o que nos angustia
é vê-lo roubado. O tempo a ser
reconquistado: a preguiça como resistência. A jornalista Carla Miguelote
citou textos do socialista francês Paul Lafargue, que em 1880 escreveu
“O Direito à Preguiça” e “Macunaíma”, de Mário de Andrade.
Lafargue achava uma loucura a paixão dos trabalhadores pelo trabalho e
sugeria que eles se unissem para pararem de trabalhar. Mário de Andrade já
tira o caráter negativo da preguiça, traço do protagonista do livro,
dando a ela um sentido de sexualidade, descoberta do corpo, em resposta
aos males e preconceitos trazidos pela colonização. Segundo ele: “A
arte deve ter nascido de um bocejo sublime”. E a preguiça ganhou um dia
especial: 7 de novembro. O cantor Fausto Fawcett,
que não usa relógio, contou que por ter decidido ser um artista, ele tem
muito tempo disponível e mesmo assim fica ligado 24 horas por dia. “Eu
vejo quantos amigos estão algemados, presos aos horários de trabalho, às
horas de lazer definidas, este ‘núcleo de normalidade’ que se
transforma em uma espécie de garras”. Sobre o ócio ele questionou:
“Será que realmente as pessoas têm a capacidade de ficar de bobeira
para filosofar?”. Pelo menos no Café Filô
não faltou quem quisesse filosofar. O que mais se viu na noite foram
perguntas, questionamentos, dúvidas e comentários de uma platéia
atuante e calorosa. A terceira edição do Café Filô vai acontecer no
dia 27/02 com o tema: Sua vida
não vai ser mais a mesma: publicidade e violência. A entrada
é franca e senhas são distribuídas antes do início do debate. Café
Filô: um espaço onde mexer o café com a colherinha é um convite à
reflexão. (Dominique Valansi) |