Conversa, filosofia e cafezinho


A idéia de um café filosófico pode parecer estranha: como seria possível debater filosofia no meio do barulho e da agitação de um café? Com a intenção de torna-la mais acessível a todos e não limitada às universidades, o já falecido filósofo francês Marc Sautet criou na praça da Bastilha no final de 1992, o café filo, que era realizado no Café dês Phares. Assim, nas manhãs de domingo, franceses de várias profissões, ávidos por pensar o mundo e os acontecimentos cotidianos se encontravam para filosofar, no ambiente descontraído de um café.

A partir desta idéia, o Verão Odeon BR traz, quinzenalmente, o Café Filô: um ponto-de-encontro sem o rigor formal das discussões acadêmicas para um bate-papo sobre assuntos importantes do nosso cotidiano. As organizadoras do evento, a roteirista Melanie Dimantas e a editora e livreira Ana Paula Martins convidaram filósofos, sociólogos e artistas para tomar um café e conversar com o público sobre diferentes temas, no segundo andar do Odeon Br.

A primeira edição do Café Filô aconteceu na quinta-feira, dia 30, a partir das 20h. Mesas, cadeiras, sofás, pufes e uma iluminação mais suave deram o tom intimista do evento. Os convidados deste primeiro encontro foram: DJ Marlboro; Adair Rocha, do Departamento de Teologia da PUC-Rio; Écio do Afroreggae, Henrique Antoun, Doutor em Comunicação pela UFRJ; e Carmen Luz, da Companhia Étnica. O tema foi Centro das Intenções: A Praça. E nada melhor do que a vista para a Cinelândia, uma das praças mais importantes da cidade, para filosofar sobre o assunto.

No debate, se falou sobre a praça como espaço público, lugar de aglomeração, espaço de circulação de informações. Como Brasília virou a praça do Brasil quando Luís Inácio Lula da Silva tomou posse. As noções positivas da praça também contrastaram com idéias negativas: “A praça era onde os soberanos tornavam visíveis os seus poderes, a partir dos castigos, das execuções públicas que aconteciam nas praças”, contou Henrique Antoun.

Um dos caminhos que o debate seguiu foi a questão das comunidades carentes, das favelas e o que a praça representa para eles. O DJ Malboro falou sobre a praça do funk, as perseguições que o movimento é vítima e que os funkeiros são sempre relacionados à coisas negativas. “O funk não é o culpado pelas diferenças sociais. Quanto às letras, as pessoas não deveriam ficar chocadas com elas, e sim com a realidade de quem vive em uma favela.”

Carmem Luz, que trabalha em comunidades carentes, defendeu o funk lembrando as oportunidades de trabalho que os bailes abriram nas favelas. Sobre as polêmicas letras, de temas sexuais, drogas e violência, ela afirmou: “Lá, as pessoas encaram o funk como entretenimento. Eles não querem isso dentro de suas casas”.

Écio do Afroreggae citou o fim da praça como lugar de encontro, por medo da violência. Ele falou de sua experiência com o Conexões Urbanas, que leva eventos grandes para dentro das favelas e comunidades consideradas perigosas e da importância da praça para esses moradores. A noção de asfalto versus favela foi tratada por Adair Rocha que recentemente publicou Cidade cerzida: a costura da cidadania no Morro Santa Marta.

A conversa descontraída, que durou mais de duas horas, contou com a participação do público que fez comentários e perguntas para os participantes. A segunda edição do Café Filô vai acontecer no dia 13/02 com o tema: Tempo roubado: tecnologia, tempo e espaço. A entrada é franca e senhas são distribuídas antes do início do debate. Café Filô: um espaço onde mexer o café com a colherinha é um convite à reflexão.

(Dominique Valansi)

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