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Charles Gavin: Arqueólogo da MPB O Bossa e Balanço, o evento mais musical do Verão Odeon BR, chegou a sua terceira edição com um convidado muito especial: Charles Gavin. Além de baterista dos Titãs, o músico tem feito uma importante pesquisa sonora de grandes bandas e artistas brasileiros, muitos no ostracismo, resgatando e relançando seus discos. Seja em sebos, feirinhas no Brasil, Londres ou Japão e discotecas de colecionadores, Charles faz uma busca minuciosa por preciosidades. Este seu trabalho de produção e restauração de raridades da MPB é uma grande contribuição para a memória da música brasileira e serviu de inspiração para o Bossa: "Este evento foi feito muito por causa do Charles. Porque este hábito de reeditar coisas muito antigas foi despertado na nossa geração por ele. O Charles tem sempre um vinil novo para mostrar, ele é um incansável freqüentador da Pedro Lessa (rua do Centro do Rio de Janeiro conhecida por seus tradicionais vendedores de vinis).", contou o jornalista Hugo Sukman. Tudo começou quando Charles Gavin foi remasterizar dois discos do grupo Secos e Molhados para uma compilação lançada pela gravadora Continental. Foi um sucesso de vendas que ultrapassou a marca de 40 mil cópias, o que abriu as portas para o acervo de outras gravadoras e outros artistas. O som que iniciou a noite foi "O Último dos Moicanos", música e título do disco de Moreira da Silva lançado em 1963 e relançado na Coleção Odeon 100 Anos. Charles Gavin agradeceu a presença de todos, contou que já foram "resgatados" mais de 200 discos e falou sobre os vários trios de bossa jazz que se proliferaram no país depois da Bossa Nova: "Eu entrei nessa mais por preocupação de não achar os discos". O músico Dé Palmeira reforçou: "Gravava-se muito nessa época. Se você refez 200, então ainda deve ter mais dois milhões de discos pra fazer!". Falando em trios, o DJ Jorge Luiz botou pra tocar o Ginga Trio, cujo disco "Plenitude" foi relançado na série Arquivo Warner. "Era um disco que valia muito, tipo uns 600 reais, que eu conheci, curiosamente, através de amigos japoneses", contou Charles. A graça veio com o vinil de Norminha, ou melhor, Jô Soares em um de seus mais famosos papéis do programa televisivo "Faça humor não faça guerra". A música, de um humor de altíssima qualidade foi: "Vampira Banguela", que arrancou risos da platéia. Um músico que andava no ostracismo e a cada dia que passa é mais cult (principalmente em Londres) é Orlann Divo, outro relançamento de Charles Gavin. Para mostrar uma das facetas do artista, foi executada "Vô Batê Pa Tu", cantada pelos comediantes Chico Anísio e Arnaud Rodrigues. "Este foi um dos últimos sucessos de Orlann Divo. Nos últimos anos começaram a pirateá-lo, o que ele adora!", disse Sukman. Charles Gavin concordou: "Os piratas ajudam. Eu já cheguei em gravadoras mostrando discos piratas até em vinil. E trouxe para o Brasil piratas comprados em Londres. E acabei entendendo o que acontecia: um cara, que dizem que é maestro, apelidado de "Russo", fazia na Tchecoslováquia os vinis e exportava para o mundo todo. E aqui no país ele pegava a matéria prima. E eu fiquei revoltado no dia em que o João Donato, que era copiado e estava sem gravadora, teve um enfarte e não tinha dinheiro para pagar o hospital.", disse. A busca pelo "pirata" que levava a música brasileira para copiar fora do país fez com que Charles Gavin se envolvesse em algumas confusões. Uma vez ele quase brigou com um inglês que comprava vinis em uma loja de São Paulo ao perguntar se ele iria fazer cópias dos discos no exterior. Aconteceu um bate-boca e a dona da loja ficou ofendida afinal, aquele era um de seus melhores clientes. Outra história foi com um japonês, que o músico apelidou de "Samurai", que comprava vinis raros antes dele e os colocava em um carrinho lotado. Só que este comprador não era "pirata" e Charles acabou o conhecendo em um show do João Donato por terem um amigo em comum. Depois de muito papo, mais música da melhor qualidade: o duelo sonoro de Elza Soares com o baterista Wilson das Neves e uma descoberta sensacional em um lote de discos: a dupla Ana Maria e Maurício, donos de um som que fez Charles Gavin chorar. "Eu sou um canceriano saudosista. Esta música me lembrou Rivelino, a Transamazônica, os programas de televisão geniais. Este tipo de levada me emocionou muito", confessou. Hugo Sukman também virou fã da dupla: "Eles misturam a malandragem de Simonal com Tropicalismo. O Charles não chorou à-toa. Eu passei o carnaval ouvindo isso!". Charles explicou que vários artistas mostrados no Bossa e Balanço tiveram um início de carreira brilhante e depois sumiram. Outro trio que ilustrou a noite foi o Trio Mocotó, que só saiu no Japão e só há pouco foi lançado por aqui. Sukman ressaltou que o percursionista do trio, João Paraíba é uma autoridade da cuíca e que é um dos artistas mais sampleados do Brasil. Roberto e Erasmo Carlos também participaram da noite com a música "O sorriso de Maria", que mostra uma faceta do "tremendão" de protesto, pouco conhecida do público. Charles Gavin falou da dificuldade de se relançar os discos já que nos anos 60 e 70 ninguém fazia contratos e hoje em dia tudo tem que ser por escrito. Além disso, os artistas que ficaram no ostracismo muitas vezes não aceitam os novos contratos por não acharem que estão recebendo o que merecem, o que é uma pena. Perguntado se as gravadoras tinham má vontade de relançar os discos, ele respondeu: "As pessoas das gravadoras são super bem-intencionadas, elas abrem o acervo e eu procuro. Mas o dia-a-dia é muito complicado pois as empresas não têm tempo para levar a cabo projetos que duram um ano. Muitas vezes o cd não sai porque o músico já faleceu, não se acham seus descendentes... A dificuldade é só convencer a gravadora de relançar um disco que deve vender apenas cerca de duas mil cópias". Perguntas mais técnicas também surgiram e Charles explicou resumidamente o processo de remasterização, que segundo ele "é o que se pode ser melhor, mostrando as sutilezas", e o trabalho de procurar e refazer as capas originais. Mais música rolou, desta vez na voz de Noriel Vilela, outra grata surpresa encontrada por Charles. Ele usa uma linguagem típica de terreiro e sua música "Só o Ôme" é a preferida do baterista do Paralamas do Sucesso, João Barone. Todas as sutis mudanças da remasterização foram mostradas em um bloco só com músicas de Caetano Veloso, em suas versões originais e nas novas, feitas para a sua caixa de 37 CDs, em comemoração aos seus 35 anos de carreira. O público pôde conferir o "antes e o depois" de grandes sucessos como "Odara" (que, segundo o músico Dé Palmeira tinha uma bateria caótica que ficou audível com a mixagem), "Olha o menino" (música de Jorge Ben gravada por Caetano em 1977, que para Sukman ganhou ares de anos 60 ao mostrar os sons das cordas que antes ficavam escondidas), "Objeto Não-identificado", "Soy Loco Por Ti América", e "Tropicália". As curiosidades também tiveram vez na versão "sutilmente desrespeitosa" de Rogério Duprat para "Chega de Saudade", que para Sukman "parece um circo chegando" e "Tristeza não tem fim", do primeiro e raro disco de Roberto Carlos, quando o rei ainda não tinha sua majestade e imitava João Gilberto: "Ele não gosta deste primeiro disco, por isso nunca vai ser relançado", contou Charles. Uma versão samba jazz de "Light my Fire", do The Doors na voz de Maysa, confundiu muita gente. E, a versão também samba jazz de "Hava Naguila", do primeiro disco de Flora Purim rendeu piadas como "comemore seu bar-mitzva no Beco das Garrafas". A atriz Norma Bengell cantando "Ce si bon" foi outra raridade encontrada por Charles, que inclusive gravou um disco pela Odeon. E diretamente de 1938, tirado de um disco de 78 rotações, apareceu uma gravação de Vassourinha, um expoente do samba paulista, que morreu de tuberculose óssea aos 21 anos. Fechando a noite, mais curiosidades desta vez saídas do campo de futebol: Zico canta com Fagner "Batuque da Praia", Pelé canta com o "auxílio luxuoso de Sérgio Mendes" e encerrando a edição mais longa do Bossa e Balanço, Lúcio Alves canta "Balançamba". Os encontros dos três mosqueteiros da música, o DJ Jorge Luiz, o músico Dé Palmeira e o jornalista Hugo Sukman, terminam sua primeira fase já deixando saudades. Para eles, o "DArtagnan Charles Gavin" deveria estar em todas as edições. Fica o convite. E a espera para mais um Bossa e Balanço. (Dominique Valansi)
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